Escalas fenológicas
No estudo rigoroso da fenologia das plantas são utilizados protocolos padronizados, constituídos por códigos numéricos atribuídos aos estádios (ou estados) fenológicos (as chamadas escalas fenológicas), frequentemente acompanhados por desenhos ou fotografias demonstrativas. Estes protocolos, bem como os estádios fenológicos neles reconhecidos, variam consoante a espécie-alvo e os objetivos específicos dos estudos (e.g., monitorização de flutuações climáticas ou emissão de avisos agrícolas para tratamentos fitossanitários).
Historicamente, as escalas de Fleckinger (1948) para a macieira, de Baggiolini (1952) para a videira-europeia e a de Zadoks et al. (1974) para os cereais são as escalas fenológicas mais conhecidas e enraizadas no setor agronómico. Têm, contudo, o grande inconveniente de se aplicarem a uma única espécie (ou a um grupo muito restrito de espécies de fenologia semelhante), não permitindo a comparação direta de dados entre culturas diferentes. Por outro lado, as clássicas escalas de Fleckinger e Baggiolini focam-se quase exclusivamente no desenvolvimento dos gomos florais ou mistos, das inflorescências e das flores — excluindo, na prática, a fenologia estritamente vegetativa da planta.
Para colmatar estas lacunas, surgiu a escala fenológica alargada da BBCH (acrónimo de Biologische Bundesanstalt, Bundessortenamt and CHemical industry) (Meier, 2001), que constitui hoje a tentativa mais bem-sucedida de normalização universal dos estádios fenológicos das plantas superiores. Desenvolvida originalmente para um vasto leque de espécies cultivadas, com base na arquitetura da escala de Zadoks (Meier et al., 2009), a BBCH tem a enorme vantagem de poder ser generalizada a espécies (cultivadas ou silvestres) para as quais ainda não existem escalas específicas publicadas. Nos últimos anos, a escala BBCH foi amplamente adotada como o padrão internacional, quer nos meios agronómicos, quer em estudos de ecologia fenológica de espécies não cultivadas.
A escala da BBCH utiliza um sistema numérico decimal de codificação. Os estádios fenológicos principais são numerados de 0 a 9 e, por sua vez, cada um é subdividido em estádios fenológicos secundários, também numerados de 0 a 9 (Quadro 41, Figuras 262 e 263). A cada estádio fenológico (a combinação de dois dígitos) correspondem características morfológicas precisas e de fácil observação no campo.
Os estádios principais (primeiro dígito) designam etapas macroscópicas universais do desenvolvimento da planta:
- O algarismo 0 codifica a germinação (na semente) ou o abrolhamento das gemas foliares (na planta adulta) — dois fenómenos biológicos distintos mas ecologicamente análogos no início do ciclo.
- O estádio 1 refere-se à diferenciação visível de folhas verdadeiras no eixo principal (emergentes da semente) ou nos caules emitidos por gemas foliares quiescentes/dormentes nas plantas lenhosas.
- O estádio 2 descreve a formação de ramos laterais imediatos (ramos silépticos ou afilhamento).
- O estádio 3 refere-se ao alongamento do caule principal ou emissão de ramos prolépticos.
- A fenologia do desenvolvimento reprodutivo (gemas florais/mistas e emergência de inflorescências) é agregada no estádio 5.
Os estádios secundários (segundo dígito) codificam categorias de progressão ou percentagens de desenvolvimento dentro de um dado estádio fenológico principal:
- Por exemplo, no estádio principal 0, os estádios secundários 07 e 09 correspondem, respetivamente, à emergência do coleóptilo a rasgar a semente e, posteriormente, à sua emergência visível à superfície do solo.
- O algarismo secundário 3 pode representar fisionomias tão diversas como a 3.ª folha expandida (código 13), o 3.º afilho (código 23), o 3.º nó visível (código 33), 30% do comprimento final estimado de uma estrutura (e.g., código 33 no alongamento) ou 30% das flores abertas em plena ântese (código 63).
Em algumas plantas de arquitetura mais complexa, é conveniente introduzir um terceiro algarismo (criando uma mesoscala de 3 dígitos) entre os estados fenológicos principal e secundário. Isto aplica-se a culturas como as cucurbitáceas, o tomateiro e a batateira, ou para numerar sequencialmente os múltiplos períodos de crescimento (vagas de abrolhamento) no cacaueiro, abacateiro e noutras espécies tropicais de crescimento rítmico bem marcado.
Na aplicação prática e de campo da escala da BBCH, é imperativo ter em consideração as seguintes regras operacionais (Hess et al., 1997; Meier, 2001; Meier et al., 2009):
- Estádios fenológicos morfologicamente similares recebem o mesmo código numérico, independentemente da espécie de planta avaliada (normalização universal).
- A avaliação do estádio fenológico pode ser escalada à dimensão da flor individual, da árvore, da população, da parcela agrícola ou mesmo da região. Em agronomia, interessa fundamentalmente avaliar o estádio fenológico médio de uma cultivar à escala da parcela de cultivo.
- Numa avaliação à escala da parcela cultivada (ou de uma população silvestre), o registo do código fenológico deve ser feito com base na observação dos indivíduos mais representativos e medianos do grupo, ignorando os extremos.
- Nas espécies que desenvolvem múltiplos caules desde a base (e.g., gramíneas afilhadas ou arbustos basítonos), a avaliação fenológica padrão deve ser sempre realizada no eixo (caule) principal mais avançado.
- Convenciona-se que um determinado estádio fenológico só é formalmente atingido e codificado quando mais de 50% das plantas da amostra ou da parcela exibem as características morfológicas exigidas por esse estádio.
- Se necessário, utiliza-se um hífen para descrever uma parcela fenologicamente heterogénea, onde um grupo de plantas exibe vários estádios secundários simultâneos dentro do mesmo estádio principal (e.g., o código "61-67" indica que o pomar tem árvores a iniciar a floração e outras já no fim da floração).
- Os estádios fenológicos principais não são todos igualmente relevantes ou sequer presentes em todas as plantas. Por exemplo, o estádio 2 (emissão de ramificações antecipadas/silépticas) é crítico na monitorização do abacateiro, mas funcionalmente irrelevante nas pomoídeas; de igual modo, o estádio 4 (desenvolvimento de órgãos vegetativos de colheita) é crucial na batateira (tubérculos), mas está estruturalmente ausente no ciclo das árvores de fruto.
- Embora, teoricamente, um estádio fenológico principal com um número maior seja cronologicamente mais tardio, na realidade da planta os estádios principais podem decorrer em paralelo (e.g., o estádio foliar 1 e o desenvolvimento da inflorescência 5) ou até inverter a sua ordem lógica aparente (e.g., o desenvolvimento e a abertura das flores [estádios 5 e 6] precedem frequentemente a emissão dos caules vegetativos [estádio 3] em muitas espécies lenhosas como a amendoeira).
- Quando dois ou mais estádios fenológicos principais decorrem notoriamente em paralelo na mesma planta, estes devem ser assinalados na ficha de campo separados por uma barra oblíqua (e.g., "16/22").
- Os estádios fenológicos secundários pontuais são registados e atingidos em dias precisos do calendário agrícola.
- A duração temporal (em dias ou graus-dia) de um determinado estádio fenológico pode ser facilmente calculada a partir do intervalo entre as datas precisas em que foram atingidos dois estádios fenológicos sucessivos.
- A semente seca e dormente, ainda não semeada, recebe, por convenção, o código 00.
- Nas plantas cultivadas anuais, após a colheita mecânica ou a disseminação natural total das sementes, aplica-se o código terminal 99. Nas plantas lenhosas perenes, este mesmo código 99 é utilizado para assinalar a entrada definitiva no período de dormência invernal (repouso vegetativo).
QUADRO 41: Escala fenológica universal da BBCH (adaptado de Meier, 2001)
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Código principal |
Descrição fenológica |
Descrição fenológica (inglês) |
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0 |
Germinação da semente / Abrolhamento das gemas (inc. enraizamento de estacas e soldadura de enxertias). |
Germination / Sprouting / Bud development. |
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1 |
Desenvolvimento foliar (no eixo/caule principal). |
Leaf development (main shoot). |
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2 |
Formação de caules laterais (i.e., caules silépticos / afilhamento). |
Formation of side shoots / Tillering. |
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3 |
Alongamento do caule principal ou crescimento da roseta basal. |
Stem elongation or rosette growth / Shootdevelopment (main shoot). |
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4 |
Desenvolvimento de órgãos vegetativos passíveis de colheita (e.g., tubérculos) ou órgãos de propagação vegetativa (e.g., estolhos) / Emborrachamento (nas gramíneas). |
Development of harvestable vegetative plant parts or vegetatively propagated organs / Booting (main shoot). |
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5 |
Emergência da inflorescência (no caule principal) / Espigamento. |
Inflorescence emergence (main shoot) / Heading. |
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6 |
Floração e ântese (no caule principal). |
Flowering (main shoot). |
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7 |
Desenvolvimento e crescimento do fruto. |
Development of fruit. |
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8 |
Maturação fisiológica do fruto e da semente. |
Ripening or maturity of fruit and seed. |
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9 |
Senescência da planta / Início da dormência (nas plantas lenhosas). |
Senescence / Beginning of |