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7. Cladoptose

Nas primeiras páginas deste volume, defendeu-se que as plantas estão «condenadas» a crescer (v. «Estrutura modular das plantas. Totipotência celular») — a produção de ramos e folhas é uma inevitabilidade. Nas plantas lenhosas, a acumulação de ramos em grande número, ainda que moderada pela dominância apical, aumenta os gastos energéticos (todas as células vivas consomem energia), a resistência à deslocação dos fluidos floémicos e xilémicos, o risco de ensombramento e de lesões mecânicas nas folhas, e o risco de rutura de ramos e pernadas por efeito do próprio peso, do peso da neve ou da ação mecânica do vento. Por conseguinte, a rejeição dos ramos em excesso na copa (eventualmente doentes ou ineficientes) e a aquisição evolutiva de mecanismos biológicos para esse fim são potencialmente vantajosas.

A abscisão ativa de ramos chama-se cladoptose. À semelhança da abscisão de folhas, de flores abortadas, de frutos maduros ou de sementes, a cladoptose envolve a formação de camadas de tecidos suberosos especializados (zona de abscisão) que cortam as conexões vasculares e provocam a fragilização, a morte e posterior queda dos ramos. A cladoptose é mais intensa em condições de stresse ambiental (e.g., seca extrema). É também particularmente vantajosa em ecossistemas com grandes riscos de incêndio, porque diminui a probabilidade de ocorrência de fogos de copa através de dois mecanismos morfológicos: (i) a abscisão natural de ramos basais (desrama) afasta a canópia do solo, eliminando a continuidade vertical do combustível, e (ii) promove a eliminação de ramos secos altamente inflamáveis (Bond & Keeley, 2005).

Buck-Sorlin e Bell (1998, citados por Bell, 2008) recolheram do solo, ao longo de um ano, sob a copa de uma única árvore de Quercus robur (Fagaceae), cerca de 37 000 fragmentos lenhosos (excluindo folhas). Contudo, as árvores não são todas igualmente eficientes a libertar-se dos ramos em excesso. O pinheiro-bravo desrama naturalmente com grande eficácia, sobretudo em povoamentos florestais densos. A maior parte das angiospérmicas também o faz. Os ciprestes (Cupressus, Cupressaceae), por outro lado, não possuem esta capacidade (Figura 230). Para se obterem boas madeiras de Cupressus, sem a desvalorização provocada por nós soltos (ramos mortos retidos no fuste), é necessário desramar artificial e ciclicamente as árvores.

A cladoptose fisiológica não deve ser confundida com a queda estival de ramos maduros das árvores (summer branch drop). Como se subentende da designação, a queda estival de ramos ocorre com mais frequência no verão, sobretudo em condições meteorológicas de grande acalmia após chuvas copiosas que sucedem a um período de seca intensa. Este fenómeno resulta da interação complexa do stresse hídrico estival e do aumento abrupto do peso dos ramos (através da hidratação e diferenciação de novas folhas e frutos), com a fragilização estrutural prévia dos mesmos, produzida pela acumulação de microrroturas no lenho por causas ambientais (e.g., peso da neve e ventanias passadas) ou parasitárias (e.g., fungos lenhícolas endófitos) (Linhares et al., 2023). A queda estival de ramos é um fenómeno mecânico, súbito e imprevisível, que coloca em risco pessoas e bens em contextos urbanos.