Acerto conceptual
A classificação biológica é um modo, entre muitos outros, de arrumar as plantas em grupos internamente consistentes. Embora reflita relações de parentesco e possua um elevado valor preditivo (e.g., da estrutura floral e anatómica), a classificação biológica tem uma utilidade limitada em alguns contextos. Por exemplo, o espectro taxonómico (taxonomic spectrum), i.e., a distribuição das espécies por famílias botânicas, oferece uma informação muito limitada sobre a ecologia das comunidades vegetais (sinecologia). Isto acontece porque plantas de uma mesma família podem ter ecologias e formas muito distintas (e.g., leguminosas herbáceas vs. leguminosas arbustivas) e, inversamente, plantas de famílias evolutivamente distantes convergem em ecologias similares devido a pressões seletivas idênticas (e.g., plumbagináceas e quenopodiáceas adaptadas à salinidade dos alcantilados marinhos).
O agrupamento das plantas em função da sua forma exterior (fisionomia) é uma alternativa extremamente útil, por exemplo, no estudo da vegetação em territórios de flora mal conhecida, na exploração de síndromes de adaptação ao fogo, à herbivoria ou à secura edáfica à escala do ecossistema ou, como se referiu, em estudos de sinecologia. Os grandes biomas terrestres (e.g., deserto, estepe, taiga ou floresta tropical) são primariamente definidos a partir do tipo fisionómico vegetal dominante. Uma vez que a evolução produziu uma imensa variedade de formas nas plantas, existem múltiplas soluções metodológicas para as organizar em tipos fisionómicos (plant growth form ou growth form), i.e., em grupos cujas plantas partilham uma morfologia externa similar.
Os tipos fisionómicos são, aliás, a componente-chave no estabelecimento de grupos funcionais de plantas (plant functional groups) — sistemas que categorizam as plantas em função do papel ecológico e biogeoquímico que desempenham ao nível do ecossistema (uma temática não detalhada nesta publicação). Importa salientar que o conceito puramente morfológico de modelo arquitetural afasta-se conceptualmente do conceito de tipo fisionómico, porque o primeiro é independente da dimensão final das plantas e da posição (em relação à superfície do solo) das gemas de renovação (ou renovo) da parte aérea que garantem a sobrevivência na estação desfavorável (v. «Modelos arquiteturais»).
A distinção entre «tipo biológico» e «tipo fisionómico» não é sempre clara na literatura; alguns autores, inclusivamente, sinonimizam erroneamente os dois conceitos. Para Barkman (1988), pertencem ao mesmo tipo biológico (ou biótipo; plant life form) as plantas que partilham as mesmas adaptações morfológicas e/ou fisiológicas a um dado fator ecológico restritivo (e.g., o frio ou a seca). Em contraste, os tipos fisionómicos são meros grupos de plantas com morfologia externa semelhante, cujas semelhanças foram agrupadas sem referência a hipotéticas vantagens adaptativas. Na bibliografia internacional, constata-se uma forte tendência a reservar o conceito ecológico de life form e, por conseguinte, de «tipo biológico», para a classificação clássica de Raunkiær (1934) ou para outros sistemas de classificação ecológica baseados exclusivamente nas estratégias de proteção dos meristemas durante os períodos desfavoráveis do ano. Em português europeu, está consolidada a designação «tipo fisionómico» sem grandes exigências conceptuais.
A classificação global das plantas em ervas, arbustos, árvores e lianas é, talvez, o mais antigo e simples sistema de classificação fisionómica.
- As ervas são plantas anuais, bienais ou perenes, de consistência estritamente herbácea, i.e., verdes, tenras e sem evidência externa de tecidos secundários lenhificados (v. «Situação e consistência do caule»). Se se apresentarem ligeiramente lenhosas na base, dizem-se sufruticosas. As plantas herbáceas perenes (ou vivazes) têm um ciclo de vida com duração igual ou superior a três anos. Existe, em agronomia e jardinagem, a tendência para aplicar o termo vivaz às plantas cuja parte aérea herbácea seca e morre no inverno, mas que se renova anualmente na primavera a partir de órgãos subterrâneos de reserva (rizomas, tubérculos, bolbos, etc.).
- Por definição arquitetural, as árvores têm um tronco lenhoso indiviso (monocaule na base), que se ramifica a uma distância variável do solo (acrotonia dominante). As árvores são, e sempre foram, os maiores organismos vivos terrestres do planeta.
- Os arbustos, pelo contrário, ramificam-se abundantemente desde a base (basitonia) e raramente ultrapassam 5 m de altura. As árvores e os arbustos exibem um forte crescimento secundário e uma consistência lenhosa — genericamente, são designados por plantas lenhosas. Utilizando a terminologia adiante discriminada, a fisionomia dos arbustos abrange os caméfitos e os nano a microfanerófitos de Raunkiær; já todos os tipos de fanerófitos (desde nanofanerófitos a megafanerófitos) podem assumir a forma arbórea.
- Uma liana (= planta escandente) é, especificamente, uma trepadeira de caule lenhoso (e.g., videira). As ervilhacas (Vicia, Fabaceae), por oposição, são um clássico exemplo de trepadeiras herbáceas.