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Taxa supragenéricos

Os estudantes e os utilizadores das classificações botânicas usam no dia a dia um pequeno número de categorias taxonómicas, sobretudo a espécie, o género e a família (Vences et al., 2013). Desde a publicação do Genera Plantarum, de Antoine de Jussieu (1686-1758), no final do século XVIII, que a família é a categoria taxonómica superior ao género mais utilizada na organização do mundo vegetal. A generalização do uso de designações ao nível da família deveu-se, por um lado, à necessidade de reunir a enorme diversidade das plantas num número mais pequeno de entidades taxonómicas (taxa) de fácil memorização e, por outro, ao facto de muitas famílias serem de fácil reconhecimento com conhecimentos rudimentares da morfologia externa das plantas. Apesar de a atribuição da categoria familiar a um determinado grupo taxonómico ser arbitrária, o conhecimento da diversidade das plantas organiza-se em torno da categoria da família (Stevens, 2001+). A importância da categoria ordem é recente, devendo-se à implantação dos sistemas de classificação filogenéticos de base molecular.

A circunscrição dos taxa entre a subfamília e a ordem nas plantas vasculares (e sobretudo nas plantas com flor) mudou radicalmente nos últimos anos com a vulgarização dos métodos de biologia e filogenia molecular e a aceitação do princípio da monofilia. Sem surpresa, várias famílias morfologicamente heterogéneas e mal caracterizadas nos sistemas evolutivos foram reinterpretadas. As Scrophulariaceae e as Primulaceae são dois exemplos dramáticos, como se verá adiante (v. «Sistema APG»).

Durante quase dois séculos, afigurou-se pouco provável que algum dia viesse a alcançar-se um sistema de classificação universal das plantas terrestres. No que diz respeito às plantas com flor, o sistema APG — atualmente na sua quarta versão — progride nesse sentido; as gimnospérmicas estão a seguir o mesmo caminho, embora o acordo em torno da organização taxonómica das plantas vasculares de esporulação livre esteja mais atrasado (v.i.). Assim sendo, neste livro optou-se por seguir a sistematização taxonómica e nomenclatural do Pteridophyte Phylogeny Group (PPG I, 2016) para licófitos e fetos, Christenhusz et al. (2011) para as gimnospérmicas, e o APG IV (2016) para as plantas com flor. As categorias superiores à ordem são as propostas por Chase & Reveal (2009). Este sistema tem a grande vantagem de considerar as angiospérmicas e os outros grandes grupos de plantas terrestres com a categoria de subclasse, evitando assim que os clados mais antigos (sobretudo de algas) tenham de ascender à categoria de reino ou a categorias imediatamente inferiores (v. vol. I e Quadro 8).

Ainda assim, a nomenclatura e a taxonomia das plantas vasculares (e de todas as plantas terrestres) de categoria superior ao género não estão estabilizadas, por três razões fundamentais. Em primeiro lugar, muitas relações filogenéticas demoram a estabilizar: a fitodiversidade do planeta é grande e, conforme se alertou no primeiro volume, continuam por fechar as relações de parentesco entre alguns dos grandes clados das plantas com semente (e.g., a circunscrição de algumas ordens do APG tem-se revelado difícil). Em segundo lugar, a aceitação da sistemática filogenética não é universal: os sistemas evolutivos de classificação continuam em uso na bibliografia botânica, assim como vários grupos polifiléticos e parafiléticos. Por fim, e como se referiu a respeito da sistemática filogenética, a delimitação e a categorização dos taxa supraespecíficos residem em grande medida — e provavelmente sempre residirão — num argumento de autoridade (v. «Sistemas filogenéticos»).