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Natureza e funções da folha

A folha é um órgão lateral de inserção caulinar, vascularizado, usualmente de forma laminar e estrutura dorsiventral (= bifacial), de crescimento rápido e, por regra, determinado (finito). A dorsiventralidade implica que as superfícies (páginas) superior e inferior sejam claramente distintas e que, geralmente, exista um só plano de simetria (simetria bilateral).

A folha é, essencialmente, um órgão especializado na fotossíntese, na transpiração e na fotoperceção (Ichihashi & Tsukaya, 2015). A folha é o órgão vegetal de maior plasticidade, quer do ponto de vista evolutivo (e.g., a enorme diversidade estrutural dos filomas nas Asteráceas; plasticidade evolutiva), quer do ponto de vista ontogénico [e.g., a heteroblastia observada na passagem da fase juvenil ao estado adulto nas heras (Hedera, Araliaceae); plasticidade ontogénica] ou fenotípico (e.g., a variação da espessura das folhas em função da intensidade da luz; plasticidade fenotípica) (v. «Características e consequências da estrutura modular»).

QUADRO 14

Funções da folha (diversos autores)

Função

Descrição/comentários

Absorção de água

A absorção direta de água atmosférica (orvalho ou nevoeiro; precipitação oculta) pelos estomas e hidátodos é vital em numerosos ecossistemas. A reversão do fluxo hídrico (das folhas para as raízes) foi demonstrada em mais de 70 espécies de 34 famílias, desde desertos a florestas tropicais (Goldsmith et al., 2013).

Absorção de nutrientes

As folhas capturam do ar o carbono e o oxigénio que constituem cerca de 90% da matéria seca da planta. Nos ecossistemas naturais, a absorção foliar de compostos azotados (amónia, dióxido de azoto) e de fósforo (via poeiras) é significativa. A adubação foliar é uma prática comum em agricultura para correção rápida de carências nutritivas.

Assimilação
(fotossíntese)

A conversão de energia luminosa em energia química e a produção de fotoassimilados ocorrem, primordialmente, no mesófilo foliar e, em menor grau, nos caules jovens e em certas metamorfoses caulinares (cladódios)..

Captura de presas

Na maioria das plantas carnívoras, as presas são capturadas pelas folhas («Metamorfoses da folha»).

Comunicação e defesa

As folhas libertam Compostos Orgânicos Voláteis (COVs) em resposta a ataques de herbívoros. Estes sinais químicos alertam plantas vizinhas (priming) ou atraem predadores naturais das pragas (defesa indireta).

Fotoperceção

A folha atua como um sensor ambiental. Fotorreceptores especializados (e.g.,  fitocromos) detetam a qualidade, a intensidade e a duração da luz (fotoperíodo), intervindo na regulação de processos fundamentais na biologia das plantas como a floração e a dormência.

Excreção e desintoxicação

As folhas funcionam como órgãos excretores de acumulação. Substâncias tóxicas (metais pesados) ou catabolitos secundários são sequestrados nos vacúolos das células foliares e eliminados da planta aquando da senescência e queda da folha (abscisão) (Ford, 1986). Em muitas plantas halófilas, glândulas especializadas excretam ativamente o excesso de sal.

Interceção de material particulado

A superfície foliar (especialmente se pubescente ou rugosa) retém material particulado atmosférico. Este material é posteriormente transportado pela chuva para o solo sob a copa (throughfall), disponibilizando nutrientes para absorção radicular (P. J. Edwards et al., 2015).

Gutação

Em condições de elevada humidade do solo e baixa transpiração (e.g., noite), a pressão radicular força a saída de água líquida e de solutos indesejados através de estruturas especializadas nas margens das folhas (hidátodos), aliviando a pressão no xilema, evitando o alagamento dos espaços intercelulares e danos nos tecidos) (Cerutti et al., 2019).

Mimetismo e camuflagem

A folha tem um importante papel em muitos dos casos de mimetismo e camuflagem («Mimetismo e camuflagem»).

Proteção

Os meristemas apicais estão permanentemente protegidos por esboços foliares (= folhas recém-diferenciadas ainda imaturas), por folhas modificadas para o efeito (catafilos) ou pelas estípulas. As folhas protegem o solo e os caules da inclemência dos raios solares.

Reprodução

As peças florais são folhas muito modificadas. Raramente, por via assexuada, obtêm-se novas plantas a partir de pequenas gemas diferenciadas na margem das folhas ou de folhas com capacidade de emitir raízes adventícias peciolares; e.g., Begonia (Begoniaceae) e alguns Bryophyllum (Crassulaceae) (Figura 130).

Reserva

As folhas podem acumular água (suculência; e.g., AloeSedum) ou reservas nutritivas em órgãos subterrâneos como os bolbos (catafilos carnudos da cebola, Allium cepa).

Síntese de reguladores de crescimento

As folhas jovens são locais primários de síntese de hormonas vegetais, como auxinas e giberelinas, que são translocadas para regular o crescimento noutros órgãos.

Suporte

Ocorre através de folhas ou partes da folha (folíolos, pecíolos) metamorfoseadas em gavinhas, permitindo a ascensão de plantas trepadeiras (v. «Metamorfoses da folha»).

Transpiração

A perda de água sob a forma de vapor pela cutícula ou pelos estomas é fundamental no arrefecimento das plantas e na génese das forças de sucção responsáveis pela circulação de água e nutrientes no xilema das plantas (teoria da coesão-tensão). A turgidez excessiva reduz o crescimento – a transpiração, ao reduzir o teor de água das células, incrementa, dentro de determinados limites, a taxa de crescimento das plantas.