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1. Ciclos floral e reprodutivo das angiospérmicas

Os meristemas e, em seguida, as flores cumprem, de forma sequencial, um conjunto de fases, parcialmente sobrepostas, que, em conjunto, constituem o chamado ciclo floral (flower cycle). Numa primeira etapa, os meristemas vegetativos volvem competentes para produzir flores (v. «Indução, iniciação e diferenciação florais»). A evidência de estruturas da inflorescência (e.g., brácteas) ou de flores a nível meristemático marca o início da diferenciação floral. Na fase de botão floral, são macroscopicamente visíveis flores por abrir, protegidas e involucradas pelo cálice.

Concluída a diferenciação anatómica da flor, acontece a ântese (= floração), i.e., a abertura da flor e a consequente exposição dos órgãos reprodutores ao exterior, geralmente através da deflexão de sépalas e pétalas. No decurso da ântese, sucedem-se a deiscência das anteras, a polinização, a germinação estigmática dos grãos de pólen, o desenvolvimento do tubo polínico, a fecundação e, finalmente, o início da formação do fruto e da semente. A deiscência das anteras pode anteceder, ser simultânea ou suceder a polinização; a ordem das restantes etapas da ântese é cronologicamente constante. Finda a ântese, dá-se a senescência da flor: o perianto e os estames escurecem, perdem turgidez, morrem e, geralmente, tombam no solo.

O ciclo reprodutivo (reproductive cycle) das espécies sexuadas é mais abrangente: compreende o ciclo floral acrescido de todos os processos que ocorrem desde a fecundação até à dispersão e germinação da semente. A fecundação é imediatamente sucedida pela diferenciação da semente e do fruto. A construção destas estruturas principia com um aumento expressivo do volume dos primórdios seminais fecundados e das paredes do ovário. Na fase de maturação, o fruto para de crescer e adquire o fenótipo (cor, forma, composição química, etc.) que lhe é característico. Em paralelo, a maior parte das sementes (designadas por sementes ortodoxas) perde água, adquire resistência à secura e entra num estado de quiescência ou dormência profunda (v. «Dormência e germinação da semente»).

Consoante a estratégia da espécie, os frutos acabam por libertar as sementes (frutos deiscentes) ou dispersam-se em conjunto com elas (frutos indeiscentes). Uma vez reunidas as condições internas (e.g., a quebra da dormência) e externas (condições ambientais de humidade e temperatura adequadas), a semente germina e dá origem a uma nova planta. As plantas anuais (e.g., cereais), as bienais (e.g., cebola) e as perenes monocárpicas (e.g., o sisal) completam um único ciclo reprodutivo durante o ciclo de vida (life cycle); pelo contrário, as plantas perenes policárpicas (e.g., árvores de fruto e espécies florestais) realizam este ciclo reiteradamente ao longo de vários anos.

A duração total do ciclo reprodutivo é imensamente variável. Em condições ótimas, a Arabidopsis thaliana (Brassicaceae) — a espécie de referência e modelo nos estudos de genética vegetal — produz flores 4 a 5 semanas após a germinação, e liberta sementes maduras apenas 3 a 4 semanas depois (Rivero et al., 2014). Em contrapartida, as cultivares mais tardias de laranja chegam a ser colhidas com mais de um ano de permanência na árvore (a contar da data da ântese), e a maturação dos frutos de algumas espécies de carvalhos (Quercus spp., Fagaceae) demora quase dois anos a completar-se

As estruturas envolvidas no ciclo reprodutivo das angiospérmicas são abordadas neste e no próximo capítulo (v. «Fruto»). Os processos implicados no ciclo reprodutivo das angiospérmicas são de tal modo complexos que a maioria da terceira parte deste livro – «III, Biologia da reprodução das plantas» – é-lhes dedicada. O estudo das estruturas reprodutivas gimnospérmicas fica relegado para o ponto «Ciclos de vida das plantas terrestres».