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4. Multiplicação vegetativa a nível anatómico

Estacaria e mergulhia

O sucesso da estacaria e da mergulhia depende da emissão de raízes adventícias a partir de caules ou, em casos muito particulares, de folhas. As raízes adventícias partem geralmente da proximidade de feixes vasculares, podendo já encontrar-se pré-formadas ou ter a sua diferenciação estimulada de novo, por exemplo, através de feridas (e.g., o corte da base das estacas ou a incisão anelar praticada na alporquia) (vd. «Tipos de raízes»). A bibliografia não é consensual sobre se as técnicas utilizadas para estimular o enraizamento — como o estiolamento de rebentos através de amontoa, a aplicação de anéis metálicos na base dos caules ou o uso de reguladores de crescimento — atuam em primórdios radiculares pré-formados ou se estimulam ativamente a sua formação de novo.

A emissão de raízes adventícias está sob forte controlo genético: varia dramaticamente de espécie para espécie e, no âmbito da mesma espécie, entre genótipos. Uma vez iniciada a diferenciação das raízes adventícias, estas têm de conseguir irromper pelos tecidos corticais da planta até ao exterior. A presença de um anel contínuo de esclerênquima ou de uma periderme demasiado espessa dificulta severamente o enraizamento mecânico de estacas e mergulhões. O recurso a estacas semilenhosas (ramos do ano com atempamento ainda incompleto) e a realização de feridas longitudinais na base das estacas são duas técnicas clássicas para ultrapassar estas barreiras anatómicas.

Enxertia

O reconhecimento macroscópico da posição anatómica do câmbio vascular nos caules tem um enorme interesse prático em agronomia. Nas enxertias, sejam elas de encosto, de garfo ou de borbulha (Quadro 54), procura-se um contacto íntimo entre o câmbio do enxerto e o câmbio do porta-enxerto. A continuidade dos câmbios consegue-se pondo em prática uma velha máxima dos enxertadores: «casca com casca», i.e., forçando o alinhamento e contacto entre a casca do porta-enxerto e a do garfo em pelo menos um dos lados da enxertia (na técnica de fenda cheia, onde o garfo e o cavalo têm exatamente o mesmo diâmetro, a continuidade cambial é conseguida nos dois lados).

No período de mais intenso crescimento vegetativo (geralmente em maio, no hemisfério Norte), torna-se tão fácil destacar o felema (e os tecidos a ele exteriores) através da felogene, como separar a casca inteira através do câmbio vascular. Abrir uma "janela" de enxertia separando os tecidos pela felogene (em vez de atingir o câmbio) é um erro clássico de principiante nas enxertias de borbulha (Figura 88-C).

O sucesso das enxertias entre indivíduos compatíveis depende do desenvolvimento de um câmbio e de um sistema vascular comuns. A consolidação destas enxertias atravessa quatro etapas fundamentais (Hartmann et al., 2014). Primeiro, diferencia-se um calo cicatricial na superfície dos cortes, gerado a partir de células danificadas do câmbio, de células do parênquima lenhoso ou do xilema imaturo. Em seguida, ocorre uma interpenetração celular progressiva entre os calos de ambos os biontes. A partir das células do calo localizadas na margem da ferida, inicia-se então a diferenciação de um novo câmbio e de uma nova felogene contínuos. Finalmente, o novo câmbio começa a funcionar, produz novo tecido vascular e estabelece a circulação definitiva de seiva xilémica e floémica entre os biontes. O enxerto só pode reiniciar o seu crescimento ativo depois de perfeitamente construída esta conexão vascular. Na primavera, com tecidos ativos, bastam três dias para verificar se uma borbulha pegou com sucesso.

Nas primeiras fases da enxertia, a pressão e o fluxo das conexões vasculares podem ser geridos com técnicas muito simples. Na enxertia de gomo, a empa (arqueamento/atamento) do ramo acima da enxertia, a execução de um corte ou a remoção de uma lentícula de casca, até ao lenho, imediatamente por cima do enxerto reduzem a dominância apical do porta-enxerto, aumentando significativamente a probabilidade de abrolhamento da nova gema. Por outro lado, as enxertias de primavera (ou de gomo pronto) podem ser fisicamente rejeitadas se a intensa pressão de seiva bruta do xilema recém-diferenciado as inundar e asfixiar — um problema sério e frequente, por exemplo, na propagação da nogueira-europeia. A solução agronómica passa por executar um corte de sangria na casca, até ao lenho, imediatamente por baixo da zona de enxertia.