Skip to main content

1. Vantagens e desvantagens da reprodução assexuada

A reprodução assexuada oferece várias vantagens frente ao seu equivalente sexuado (a reprodução sexuada por semente), quer em condições naturais e seminaturais, quer no âmbito dos agroecossistemas (Quadro 53). As vantagens da reprodução assexuada e da autopolinização são parcialmente coincidentes (vd. «Vantagens e desvantagens da polinização cruzada»). Da análise do Quadro 53 depreende-se que a hipótese da segurança reprodutiva, enunciada a respeito da autopolinização, é perfeitamente generalizável à reprodução assexuada. Além disso, ambas evitam o desmembramento de combinações genéticas favoráveis. Todavia, reduzem drasticamente a variação genética — a «matéria-prima» da evolução e do melhoramento vegetal. A longo prazo, nenhuma espécie pode dispensar a combinação da sexualidade com a alogamia sem um agravamento severo dos riscos de extinção (Barrett, 2014).

Quadro 53. Vantagens da reprodução assexuada frente à reprodução sexuada

Vantagem Comentários e exemplos
Dispensa polinizadores e os riscos a eles inerentes As condições climáticas adversas ao voo dos polinizadores têm, geralmente, um efeito nulo ou muito menos negativo nas taxas de sucesso da reprodução assexuada.
Evita o desmembramento de combinações génicas favoráveis pela sexualidade Em condições naturais, a recombinação genética de origem sexual pode ser contra-adaptativa em habitats muito especializados (e.g., rochas ultrabásicas) ou em populações marginais, distantes do core (centro de distribuição) da espécie. Em contexto agronómico, permite conservar o fenótipo (e o genótipo subjacente) de plantas altamente heterozigóticas, garantindo uma descendência clonal com as mesmas características de interesse da planta-mãe.
Possibilita a reprodução de indivíduos estéreis, bem adaptados ou com características agronómicas desejáveis A bananeira é um exemplo clássico: as cultivares comerciais mais difundidas são triploides e, consequentemente, estéreis.
Evita a necessidade de quebrar a dormência da semente A quebra da dormência da semente tem custos económicos e consome tempo em viveiro. Embora a dormência de propágulos vegetativos seja um fenómeno frequente, é, regra geral, menos profunda e limitante do que a dormência da semente.
Permite ultrapassar limitações ambientais, bióticas e abióticas O uso de porta-enxertos tolerantes a diferentes pragas e doenças é indispensável na cultura dos citrinos ou do castanheiro. Na viticultura, existe uma vasta panóplia de porta-enxertos adaptados a diferentes condições edáficas (e.g., solos secos vs. húmidos, ou solos ácidos vs. solos com elevados teores de calcário ativo). Adicionalmente, a multiplicação vegetativa permite contornar os estádios fenológicos iniciais da propagação por semente (e.g., germinação e plântula), que são os mais vulneráveis às condições ambientais e ao ataque de pragas e doenças.
Permite manipular a arquitetura das plantas A enxertia em porta-enxertos ananizantes revolucionou a fruticultura moderna, permitindo a instalação de pomares intensivos de macieira, pereira e cerejeira.
Antecipa o investimento no crescimento vegetativo, com ganhos competitivos A germinação e o estabelecimento da plântula são fases demoradas porque as reservas da semente são escassas e as plântulas possuem uma superfície fotossintética exígua. Em contraste, um propágulo (como uma estaca de salgueiro ou um tubérculo de batateira) dispõe de reservas massivas para investir num crescimento imediato e vigoroso, antecipando-se aos competidores diretos pela luz e espaço.
Antecipa a floração e a produção de fruto O uso de propágulos provenientes de partes maduras da planta-mãe (ou o recurso a embriões agamospérmicos) permite encurtar drasticamente a fase juvenil da nova planta, antecipando a sua entrada em produção.

A agronomia seve-se de algumas das vantagens enunciadas no Quadro 53. Dada a sua importância, aprofundam-se, em seguida, a relevância e os riscos do uso da reprodução assexuada na conservação das características genéticas do indivíduo parental em agricultura.

Os indivíduos de cultivares multiplicadas assexuadamente — as cultivares clonais — têm uma ascendência comum próxima e um genoma praticamente idêntico. Em contrapartida, são plantas altamente heterozigóticas, i.e., a percentagem de loci heterozigóticos (com dois alelos distintos do mesmo gene em cromossomas homólogos, um de origem materna e outro de origem paterna) é muito elevada. Nestas plantas, a reprodução sexuada dá origem a populações fenotipicamente muito heterogéneas, com indivíduos marcadamente distintos dos progenitores e, regra geral, de menor interesse agronómico e económico. Por isso, a reprodução assexuada é usada desde os primórdios da agricultura para uniformizar e estabilizar o fenótipo, conservando genótipos superiores de plantas heterozigóticas perenes. A lista de espécies cultivadas propagadas vegetativamente com este intuito é enorme: ananás, batateira, batata-doce, mandioca, cana-de-açúcar e grande parte das árvores de fruto, entre outras.

Em termos estritamente agronómicos, a reprodução assexuada tem a desvantagem dos propágulos (e.g., estacas, borbulhas, tubérculos e estolhos) serem mais difíceis e dispendiosos de colher, transportar e armazenar, de possuírem uma viabilidade temporal substancialmente mais curta do que a semente e de aumentarem a prevalência e os estragos de algumas doenças. Efetivamente, a multiplicação vegetativa perpetua um vasto grupo de doenças sistémicas de etiologia viral ou fitoplásmica. Este inconveniente é particularmente nocivo na batateira (Caixa 1). A vinha, o morangueiro, a mandioca e muitas outras culturas multiplicadas vegetativamente enfrentam problemas sanitários similares aos da batateira, sendo combatidos com o mesmo tipo de soluções.

Caixa 1. O impacto sanitário da reprodução assexuada: o caso da batateira

A multiplicação contínua da espécie por tubérculos da batateira origina um rápido incremento da carga viral transmitida por afídeos, situação que só pode ser revertida por reprodução sexuada ou através do uso de propágulos sãos, obtidos por técnicas laboratoriais especializadas de cultura de tecidos in vitro. Por causas meramente sanitárias, os agricultores comerciais renovam todos os anos, ou ano sim ano não, a batata-semente (os tubérculos usados na plantação da batata).

A semente é uma alternativa interessante à propagação por tubérculos nas regiões com uma elevada incidência de doenças virais, onde os agricultores não têm capacidade financeira para adquirir material vegetativo saudável ou onde a importação de batata-semente certificada é demasiado cara (Golmirzaie et al., 2004). Com poucos gramas de semente substituem-se 2 t/ha de batata-semente, obtendo-se plantas saudáveis e isentas de vírus. Contudo, a propagação por semente comporta vários desafios agronómicos. De modo a obter progénies suficientemente homogéneas e produtivas, são realizados cruzamentos controlados, tecnicamente exigentes, com cultivares selecionadas. Além disso, as plântulas de batateira são muito sensíveis à competição por infestantes, a défices de água e a alguns fungos de solo, e o ciclo da cultura aumenta em 15 a 20 dias.