3. Liliales
Plantas herbáceas ou trepadeiras, com órgãos de reserva subterrâneos (rizomas, bolbos, tubérculos ou cormos), e raízes frequentemente contráteis (encolhem e arrastam para dentro do solo os órgãos de reserva). Folhas de morfologia muito variável. Inflorescências frequentemente terminais. Flores trímeras, com um ou dois verticilos, se dois geralmente homoclamídeas, com tépalas por norma maculadas (com manchas ou pontos); nectários localizados nas tépalas (ausência de nectários septais). Estames seis em dois verticilos, de anteras extrorsas (viradas para o exterior). Gineceu tricarpelar sincárpico. Fruto geralmente capsular. Epiderme externa da testa das sementes com estrutura celular (com células evidentes); sementes normalmente sem endosperma e sem fitomelano (cobertura negra com a textura de papel).
As vicissitudes taxonómicas da ordem foram anteriormente discutidas. Atualmente, integra dez famílias, quatro delas parte da flora lusitana: Melanthiaceae, Colchicaceae, Smilacaceae e Liliaceae (Figura 77). As populações portuguesas de Veratrum album, a única espécie portuguesa de Melanthiaceae, estão Criticamente em Perigo de extinção (Carapeto et al., 2020). As Colchicaceae são herbáceas de cormos subterrâneos, com quatro espécies em território nacional. Do Colchicum autumnale extrai-se a colquicina, uma substância usada na medicina para o tratamento da gota e na genética vegetal/agronomia para inibir a mitose e induzindo artificialmente a poliploidia (criando plantas mais vigorosas e maiores). O nome vulgar quita-merendas atribuído à Merendera montana (Colchicaceae) refere-se à sua floração outonal, a marcar o final dos dias quentes e secos de verão. A Gloriosa superba (Colchicaceae) é tão chamativa como comum em Angola. As Smilacaceae são trepadeiras dioicas de caules volúveis, folhas curvilíneo-paralelinérveas, sendo notáveis por apresentarem um par de estípulas transformadas em gavinhas em Smilax, permitindo-lhes escalar a vegetação arbustiva. Quatro espécies em Portugal: Smilax aspera (no continente), S. canariensis (endemismo canarino e madeirense), S. pendulina (endemismo madeirense) e S. azorica (endemismo açoriano). Cultivam-se em jardim ou como flor de corte híbridos de Alstroemeria (Alstroemeriaceae), «alstroemeria»; as espécies parentais têm origem na América do Sul.
Liliaceae
Hábito. Herbáceas frequentemente bolbosas.
Folha. Folhas simples, alternas, verticiladas ou todas basais, paralelinérveas.
Inflorescência. Terminal, frequentemente determinada. Por vezes flores solitárias.
Flor. Flores conspícuas, homoclamídeas, trímeras, actinomórficas e hermafroditas. Seis tépalas petaloides, geralmente adornadas com manchas e linhas. Ovário súpero de placentação axilar. Primórdios seminais numerosos. Néctar produzido na base dos filetes. Polinização entomófila; recompensa de pólen ou néctar.
Fruto. Cápsula loculicida ou baga.
Distribuição e diversidade. Cosmopolita, mais abundante nas regiões subtropicais e temperadas (ca. 15 géneros e 700 espécies).
Observações taxonómicas. Nas Floras de referência, o conceito de Liliaceae inclui taxa hoje dispersos, entre outras, pelas famílias Colchicaceae e Smilacaceae da ordem dos Liliales, e Ruscaceae, Asparagaceae e Asphodelaceae da ordem dos Asparagales.
Usos. Muitas espécies de enorme interesse ornamental, comercializadas globalmente, nos géneros Fritillaria, Tulipa e Lilium (Figura 78). A especulação com bolbos de Tulipa nos Países Baixos do século XVII desencadeou a famosa "Tulipomania" (a primeira bolha económica registada na história), impulsionada por túlipas com padrões estriados de etiologia viral (Tulip breaking virus). O Erythronium dens-canis, «dente-de-cão», uma bolbosa indígena dos bosques caducifólios do Norte e Centro de Portugal, pode ser mantida em cultivo.