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1. Alismatales

Plantas herbáceas geralmente de zonas húmidas, emergentes, flutuantes ou submersas na água, com aerênquima e rizomatosas. Caules com pelos ou escamas nos nós, por dentro da bainha. Inflorescências variáveis, frequentemente com um eixo carnudo e envolvidas por uma grande bráctea (espata). Flores unissexuais ou hermafroditas, nuas ou trímeras actinomórficas, com as peças inseridas em um ou dois verticilos, neste último caso diferenciadas ou não em cálice e corola. Estames e carpelos de um a muitos. Anteras extrorsas. Gineceu geralmente apocárpico, súpero ou ínfero. Embrião verde, por vezes com grandes cotilédones (Soltis et al., 2018).

Além das famílias adiante referidas, estão representadas na flora portuguesa as famílias Alismataceae, Butomaceae, Cymodoceaceae, Hydrocharitaceae, Juncaginaceae, Ruppiaceae, Zosteraceae e Potamogetonaceae (Figura 74). A Alisma lanceolatum é uma alismatácea frequente em meios lênticos dulçaquícolas (e.g., remansos, açudes, lagoas). A Egeria densa (Hydrocharitaceae) tem origem na América do Sul: tomou a lagoa das Sete Cidades (São Miguel, Açores) e está a revelar um tremendo potencial invasor nos rios continentais. Lamentavelmente, foram introduzidas no país outras duas invasoras aquáticas da família, a Elodea canadensis, «elódea», e, recentemente, o Lagarosiphon major, «elódea-africana». O Butomus umbellatus (Butomaceae) e a Vallisneria spiralis (Hydrocharitaceae) são, pelo contrário, duas das plantas mais raras e ameaçadas de Portugal. As Potamogetonaceae, através das plantas do género Potamogeton, são elementos importantes da flora aquática portuguesa, quer em ambientes lênticos quer em ambientes lóticos (águas rápidas).

Duas das três angiospérmicas marinhas da flora portuguesa pertencem à família Zosteraceae: Zostera marina e Z. noltii – a terceira espécie, a Cymodocea nodosa, é uma Cymodoceaceae. As espécies estritamente marinhas apresentam adaptações notáveis, como a polinização hidrófila, produzindo um pólen filiforme (em forma de fio) otimizado para o transporte pelas correntes subaquáticas. Estas espécies têm grande importância ecológica porque servem de alimento a muitas aves aquáticas ou limícolas e as suas comunidades são fundamentais no ciclo de vida de várias espécies de peixes. As Ruppia (Ruppiaceae) são, como as Zosteraceae e as Cymodoceaceae, aquáticas halófilas (meios ricos em sal), também não se afastam do litoral, mas preferem águas salobras de ambientes estuarinos ou lagunares. As Juncaginaceae são uma família de plantas tendencialmente halófilas com um corpo vegetativo graminoide que passa facilmente despercebido no campo.

Araceae

Hábito. Herbáceas terrestres, epífitas, lianas ou pequenas plantas aquáticas flutuantes (e.g.Lemna e Pistia), também epífitas, frequentemente rizomatosas ou bolbosas. Uma característica ubíqua na família é a presença de cristais microscópicos de oxalato de cálcio (ráfides) nos tecidos, que conferem elevada toxicidade e irritabilidade quando ingeridos crus.

Folha. Folhas frequentemente completas, com limbo e bainha de grande dimensão, sagitadas ou largamente elípticas, alternas espiraladas ou disticadas, frequentemente basais, de recorte e nervação variável. Reduzidas nas plantas aquáticas.

Inflorescência. Inflorescências indeterminadas, terminais, de eixo carnudo, ebracteadas (sem brácteas florais), do tipo espádice, envolvidas por uma espata (Figura 75-A).

Flor. Sésseis, pequenas, haploclamídeas ou nuas (aclamídeas), hermafroditas ou unissexuais. Estames frequentemente sinantéricos (soldados pelas anteras). Ovário sincárpico. Primórdios seminais um a numerosos. A polinização é feita maioritariamente por coleópteros, moscas e himenópteros. A base da espata forma frequentemente uma câmara de retenção temporária para os insetos; o espádice recorre muitas vezes à termogénese para volatilizar odores (frequentemente fétidos) e atrair polinizadores saprófagos.

Fruto. Normalmente uma baga; utrículo em Lemna e géneros afins. Dispersão por aves, mamíferos ou pela água.

Distribuição e diversidade. Família cosmopolita, a mais diversa no âmbito dos Alismatales, particularmente nas regiões tropicais húmidas (118 gén. e ca. 3300 sp.). A Wolffia arrhiza é a planta mais pequena do mundo, sendo frequente em águas paradas do Centro e do Sul de Portugal continental.

Observações taxonómicas. Família basal nos Alismatales. As plantas aquáticas não enraizadas de pequena dimensão (acropleustófitos) dos génerosLemna, Wolffia e outros eram, até há pouco tempo, colocadas na família Lemnaceae (Figura 75-B).

Usos. Numerosas espécies ornamentais: Anthurium spp., «antúrios», Monstera deliciosa, «costela-de-adão», Philodendron spp., híbridos de SpathiphyllumThaumatophyllum bipinnatifidum e Zantedeschia aethiopica, «jarro» (Figura 75-B). Os inhames são importantes plantas alimentares tropicais e subtropicais: Colocasia esculenta, «inhame, taro» (cultivada nos Açores e na Madeira), Alocasia macrorrhizos, «orelha-de-elefante», e Xanthosoma spp., sobretudo, X. sagittifolium (Figura 75-C). Devido aos cristais de oxalato de cálcio, estas plantas amiláceas exigem processamento térmico (cozedura) cuidadoso antes do consumo. Os frutos maduros da Monstera deliciosa são edíveis e vendem-se nos mercados da ilha da Madeira. A Pistia stratiotes é uma planta aquática pontual em jardins e, potencialmente, uma perigosa invasora em Portugal continental (Figura 75-D). A Z. aethiopica está escapada de cultura em sítios húmidos, em crescendo.