2. Magnoliales
Magnoliales
Ordem morfologicamente heterogénea com seis famílias sem representantes indígenas. As Magnoliales são plantas lenhosas de folhas alternas disticadas (no mesmo plano) com glândulas translúcidas. Flores geralmente grandes com peças numerosas, actinomórficas, homoclamídeas, acíclicas ou cíclicas, e então trímeras. Número de estames e carpelos variável, geralmente livres. Abertura longitudinal das anteras. Sementes com abundante endosperma e, geralmente, com arilo.
A noz-moscada (Myristica fragrans, Myristicaceae) levou os portugueses ao distante arquipélago indonésio das Molucas, as Ilhas das Especiarias, no século XV (Figura 70-B). As Myristicaceae estão na base da árvore filogenética da ordem; distinguem-se facilmente pela seiva vermelha e pelos gomos terminais longos e vermelhos.
Magnoliaceae
Hábito. Árvores ou arbustos.
Folha. Grandes, alternas, simples, inteiras (lobadas em Liriodendron), mais ou menos glaucas na página inferior, caducas ou persistentes, com estípulas grandes e caducas, que envolvem o caule e abrem no lado oposto ao pecíolo da folha.
Flor. Botões encerrados por uma ou mais grandes brácteas descartadas na ântese. Flores solitárias, grandes, homoclamídeas ou heteroclamídeas, actinomórficas. Perianto geralmente trímero com três verticilos, num total de nove peças, um externo sepaloide e dois internos petaloides. Flores acíclicas (tépalas inseridas em espiral) em Magnolia ao longo de um eixo (recetáculo) alargado. Estames numerosos (indefinidos), em espiral, com filete pouco diferenciado da antera. Carpelos numerosos, livres (gineceu apocárpico), espiralados; ovário súpero normalmente com apenas dois primórdios seminais. Nas Magnoliaceae, como em outros grupos, a partir da combinação ancestral (plesiomórfica) de flor acíclica de peças iguais, evoluíram formas cíclicas com cálice e corola. A robustez das peças florais, a abundância de pólen e a textura coriácea dos carpelos são adaptações à polinização por coleópteros (cantarofilia), suportando o rastejo e o mastigação destes insetos sem que os óvulos sejam danificados.
Fruto. Frutos secos semelhantes a uma pinha (múltiplo de folículos) ou carnudos (múltiplo de bagas), que depois da senescência se acumulam em grande número no solo debaixo das árvores. Sementes grandes, normalmente carnudas e avermelhadas.
Distribuição e diversidade. Fam. de pequena dimensão (2 gén. e ca. 267 sp.). Dois centros de diversidade localizados no SO asiático e nas Américas; extinta na Europa desde o final do Terciário (há mais 1,8 milhões de anos).
Usos. Com interesse maioritariamente ornamental; e.g., Magnolia spp., «magnólias», Magnolia (Michelia) figo, «arbusto-banana», e Liriodendron tulipifera, «tulipeiro», esta última também usada em carpintaria (Figura 71).
Annonaceae
Hábito. Árvores, arbustos ou lianas, aromáticos, com ramos jovens em ziguezague.
Folha. Folhas alternas disticadas, inteiras, peninérveas, de pecíolo curto.
Flor. Flores pêndulas, trímeras, geralmente com três verticilos (o interior ausente em Annona) de tépalas, acrescentes (continuam a alongar-se) após a ântese (Figura 72-A). Verticilo exterior sepaloide com peças geralmente concrescentes na base. Peças do verticilo interno por vezes eretas, diferenciando uma câmara de polinização fechada que atrai coleópteros, frequentemente associada a termogénese floral (a flor eleva a sua temperatura acima da do ambiente para volatilizar odores a fruta fermentada e oferecer um refúgio noturno aos polinizadores). Androceu em múltiplos de três, de seis a centenas de estames (mais de 2000 em certas Annona), alternos ou verticilados, com o conetivo prolongado para lá das anteras. Presença frequente de estaminódios. Gineceu súpero, apocárpico a sincárpico, de numerosos carpelos
Fruto. Fruto múltiplo ou simples, carnudo. Sementes grandes. As sementes de Annona são tóxicas mas felizmente de tegumento duro.
Distribuição e diversidade. Uma das famílias de angiospérmicas mais diversas nas florestas tropicais húmidas (111 gén. e ca. 2300 sp.).
Usos. Alguns géneros com frutos edíveis; e.g., Annona, Asimina, Rollinia e Uvaria. Nos mercados portugueses, por vezes provenientes das ilhas ou do Algarve, são frequentes a Annona cherimola, «anoneira-comum», e o híbrido A. cherimola × A. squamosa, «atemoia». Os colecionadores de fruteiras cultivam outras anoneiras, como a A. dolabripetala, «ata», a A. muricata, «sape-sape, graviola», e a A. crassifolia, «araticum», três espécies mais sensíveis ao frio do que a A. cherimola e híbridos (Figura 72-B). Uma outra árvore da família, a Asimina triloba, «paw-paw», proveniente da América do Norte, mais bem-adaptada a climas mais frios do que as anoneiras. O Brasil tem em curso programas de domesticação para fins comerciais de várias espécies de Annona de frutos edíveis. Da Cananga odorata extrai-se um óleo essencial, o ilangue-ilangue, usado em aromaterapia e perfumaria.