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1. O porquê de classificar

A domesticação das plantas e a invenção da agricultura não têm mais de 12.500 anos (Brown et al., 2009). O Homem foi caçador-recoletor em mais de 95% da sua história. Para sobreviver, os caçadores-recoletores ancestrais tinham de se lembrar dos tipos, formas, qualidades e comportamentos de milhares de espécies de animais, plantas e fungos. Pequenas diferenças no fenótipo separam cogumelos e plantas edíveis de espécies venenosas mortais. E os indivíduos da mesma espécie nunca são totalmente iguais: variam de forma com a idade, a genética ou a disponibilidade de recursos.

Consequentemente, fruto da sua história evolutiva, todos os homens são botânicos, zoólogos ou geólogos em potência, e partilham uma extraordinária capacidade de discernir regularidades a partir de informação esparsa e carregada de ruído. Ernest Mayr, o autor do moderno conceito biológico de espécie, descobriu que numa dada região da Nova Guiné os habitantes locais tinham nome para 136 das 137 espécies de aves reconhecidas pelos ornitólogos profissionais (Coyne, 2010). O autor só depois de explorar as matas da Guiné-Bissau na companhia de um curandeiro da etnia Fula se apercebeu da profundidade e da minúcia do conhecimento botânico tradicional.

Os caçadores-recoletores nunca tiveram de lidar com grandes quantidades de dados numéricos. Por isso, para nós mesmos, como seus descendentes, reconhecer e organizar plantas, animais e outros objetos complexos em grupos homogéneos é-nos mais fácil do que solucionar equações matemáticas elementares (Harari, 2014). Pelo contrário, os programas informáticos de resolução de equações complexas são substancialmente mais simples do que os programas de reconhecimento visual de objetos. A classificação visual assistida por computador envolve algoritmos de inteligência artificial em que as máquinas aprendem pelo treino repetido com casos previamente classificados por humanos. Isto, em última análise, transfere de novo o ato de classificar para o significado que tem para os humanos.

Contudo, a ciência exigiu a passagem deste instinto biológico para uma linguagem universal. Carl Linnaeus (1753) não inventou a necessidade de classificar, mas forneceu a "infraestrutura formal" necessária — a nomenclatura binomial — que permitiu que o conhecimento local se tornasse ciência global. Ao padronizar a forma como nomeamos a vida, Linnaeus permitiu que o hardware cognitivo da nossa espécie operasse numa rede de colaboração universal, superando a torre de Babel dos nomes vulgares.

Classificar objetos é, então, uma prerrogativa humana baseada na capacidade da mente de conceptualizar e reconhecer a presença de propriedades similares em objetos individuais. A este procedimento chama-se aprendizagem por indução. Apesar de ser falível do ponto de vista epistemológico, é um processo universalmente usado para produzir modelos da realidade com carácter sintético, funcional e de referência (Quine, 1987). Identificar uma planta com o nome Prunus avium, ou «cerejeira», pressupõe o reconhecimento de um conjunto de propriedades: um tronco acinzentado com tiras horizontais, folhas serradas e flores de pétalas brancas. Os nomes são uma expressão sintética de um conceito; um nome por si só de pouco vale (Izco, 2004).

Todavia, o nosso hardware visual pode ser traído pela convergência evolutiva, onde organismos de linhagens distintas desenvolvem formas semelhantes. Por isso, a taxonomia moderna evoluiu do fenótipo para o genótipo. A sistemática filogenética, ao incorporar a análise do ADN, permite hoje distinguir semelhanças superficiais de verdadeiros laços de parentesco (Judd et al., 2015). Esta transição do "olhar" para o "sequenciar" não anula a nossa intuição indutiva, mas refina-a, permitindo que a classificação reflita mais fidedignamente a história evolutiva das plantas.

Em resumo, o hardware da mente humana foi «desenhado» pela evolução para desempenhar tarefas tão complexas como a classificação de forma involuntária. Somos máquinas biológicas indutivas. No entanto, enfrentamos hoje um paradoxo: apesar deste potencial inato, a urbanização e o distanciamento do mundo natural promoveram uma crescente «cegueira botânica» (plant blindness) (Wandersee & Schussler, 1999). O homem moderno aplica agora a sua extraordinária capacidade de reconhecimento de padrões a logótipos comerciais e interfaces digitais, descurando o biota de que sempre dependeu. Porém a diversidade de seres vivos que connosco compartem o planeta é incognoscível — e impossível de conservar e de usar de forma sustentável — sem uma taxonomia.