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Nomenclatura biológica clássica

A nomenclatura biológica clássica (= nomenclatura lineana ou nomenclatura formal) arruma, de forma hierárquica, os seres vivos em categorias formais designadas por categorias taxonómicas. O ICN reconhece sete categorias taxonómicas principais (a negrito no Quadro 4), com sufixos obrigatórios entre as categorias de subtribo e de ordem. A liberdade com que são denominadas as categorias supraordinais e é usado o sufixo -phyta provém desta não obrigatoriedade.

QUADRO 4. Categorias taxonómicas reconhecidas pelo ICN

CATEGORIA SUFIXO APORTUGUESAMENTO DO SUFIXO LATINO EXEMPLO
Reino     Plantae
Sub-reino -bionta   Chlorobionta
Divisão (= Phylum) -phyta -fitos Streptophyta
Subdivisão -phytina -fitinas  
Classe -opsida -ópsidas Embryopsida
Subclasse -idae -idas Magnoliidae
Ordem -ales -ales Rosales
Subordem -ineae -íneas  
Família -aceae -áceas Rosaceae
Subfamília -oideae -óideas Rosoideae
Tribo -eae -eas Roseae
Subtribo -inae -inas  
Género     Rosa
Secção     Caninae
Série      
Espécie     Rosa canina

Os nomes específicos são constituídos pelo conjunto de duas palavras, isto é, um binome. A primeira, um substantivo ou um adjetivo substantivado (feito substantivo), corresponde ao género; a segunda, um adjetivo ou um substantivo declinado no genitivo, designa-se por restritivo ou epíteto específico. Os nomes genéricos e específicos (binomes) escrevem-se em itálico ou em negrito nas publicações impressas, sendo sublinhados em escrita cursiva. Os nomes genéricos principiam com uma letra maiúscula, podendo ser abreviados caso sejam citados mais de uma vez num mesmo texto; e.g., «em Portugal ocorrem duas espécies indígenas de bordos, o Acer monspessulanum e o A. pseudoplatanus». Os géneros são masculinos, femininos ou neutros. A sua declinação no plural é a forma mais rigorosa de aludir a mais de uma espécie, mas é evitada na maioria das publicações por excessivo zelo no uso da língua latina; e.g., «uma Festuca, duas Festuca» (mais correto duas Festucae) ou «uma Quercus, as Quercus» (o plural de Quercus, um nome da quarta declinação, é também Quercus). Nas publicações eruditas existe a tendência de tratar os géneros de espécies arbóreas no feminino, mesmo que sejam nomes masculinos (os terminados em «us», como Quercus, por exemplo), porque assim acontecia no latim clássico; e.g., uma Acer e uma Quercus. É essa a razão para usar Quercus rotundifolia e não 'Q. rotundifolius', que resultaria da aplicação estrita da regra de concordância de género entre o substantivo e o adjetivo. Repare-se que esta regra se aplica apenas às árvores, presumivelmente conhecidas no Mundo Antigo. As espécies descritas a posteriori podem não seguir esta regra, por exemplo, o Eucalyptus globulus.

As categorias subespecíficas mais utilizadas na bibliografia são a subespécie, a variedade e a forma. A cada subespécie corresponde um trinome composto pelo restritivo da subespécie ligado ao binome da espécie pela partícula «subsp.»; e.g., Ilex perado subsp. azorica. As variedades podem ser trinomes ou tetranomes, consoante sejam aplicadas a espécies ou a subespécies. Os nomes genéricos, específicos e subespecíficos não se aportuguesam.

Todas as categorias superiores à espécie são designadas por uma única palavra: um adjetivo substantivado no plural. O aportuguesamento destes termos faz-se, necessariamente, no plural; e.g., Embryopsida, embriópsidas, ou Asteraceae, asteráceas. Os nomes científicos familiares constroem-se a partir de um nome genérico, substituindo a declinação original pela terminação -aceae. O ICN autoriza o uso de nomes tradicionais familiares em oito famílias de plantas com flor, a saber: Compositae (ou Asteraceae), Cruciferae (ou Brassicaceae), Gramineae (ou Poaceae), Guttiferae (ou Clusiaceae ou Hypericaceae, na circunscrição clássica da família), Labiatae (ou Lamiaceae), Leguminosae (ou Fabaceae), Palmae (ou Arecaceae) e Umbelliferae (ou Apiaceae). Estes taxa têm, portanto, nomenclatura dupla ou tripla. O nome Leguminosae refere-se, obrigatoriamente, a um conceito alargado de Fabaceae, que inclui as subfamílias Caesalpinioideae, Mimosoideae e Faboideae. Entretanto, as Guttiferae s.l. foram repartidas por três famílias pelo APG IV: Hypericaceae, Calophyllaceae e Clusiaceae, esta última retendo o outro nome legal, Guttiferae («Sistema APG IV»).

Os híbridos entre taxa – os nototaxa – podem ser designados fazendo uma referência expressa aos seus progenitores. Em alternativa, o ICN permite atribuir nomes aos híbridos. Os híbridos pertencentes ao mesmo género levam a partícula «×» entre o nome genérico e o restritivo específico; e.g., o híbrido de Quercus robur × Q. pyrenaica também é conhecido por Q. × henriquesii. Nos híbridos intergenéricos, a partícula «×» precede um nome genérico composto. Por exemplo, o × Cupressocyparis leylandii é um híbrido, muito cultivado para fazer sebes densas e impenetráveis, de Cupressus macrocarpa e Chamaecyparis nootkatensis; alguns autores reintegram o C. nootkatensis no género Cupressus, passando o seu famoso híbrido a ser apelidado de Cupressus × leylandii. Geralmente, só se aplicam nomes de híbridos nototaxa da geração F1 (1.ª geração híbrida) e muito raramente se usa nomenclatura explícita para híbridos triplos ou quádruplos das gerações F2 ou subsequentes. Alguns híbridos podem ser posteriormente avaliados como correspondendo a populações estabilizadas com âmbito biogeográfico bem definido e, assim, considerados hibridespécies e o «×» no seu epíteto pode ser suprimido; e.g., Quercus marianica, antes designado Q. × marianica, representando um dos híbridos entre Q. faginea e Q. canariensis.

A construção dos nomes científicos e a seleção do nome científico correto obedecem a um conjunto de princípios, recomendações e regras explicitadas no ICN. Os princípios de nomenclatura governam as regras inscritas nos artigos do ICN (Quadro 5). Os nomes que não cumprem as regras são rejeitados; as recomendações não têm este carácter vinculativo. Exploremos com mais detalhe os princípios expostos no Quadro 5 e algumas das regras que deles emergem. Antes de avançar, é importante ter presentes os conceitos organizados no Quadro 6.