B. Noções de Espécie e Especiação
CONCEITOS BÁSICOS DE FILOGENÉTICA
Antes de prosseguir recomenda-se o aprofundamento de alguns conceitos fundamentais de filogenética inscritos no glossário do Quadro I.2.1. O quadro é também um resumo de alguns termos e conceitos abordados nos capítulos anteriores.
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QUADRO I.2.1. Glossário de termos de sistemática filogenética |
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CONCEITO |
DESCRIÇÃO |
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Apomorfia (apomorphy) |
Carácter ou estado de carácter derivado, i.e., uma inovação numa linhagem evolutiva. O carpelo e a dupla fecundação são apomorfias das angiospérmicas. |
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Autapomorfia (autapomorphy) |
Apomorfia exclusiva de um grupo terminal de organismos; as autapomorfias são essenciais para identificar taxa, porém, e ao contrário das sinapomorfias, inúteis para estabelecer relações de parentesco com outros grupos. O ginostémio – estrutura resultante da concrescência do androceu e do gineceu – é uma inovação exclusiva (autapomorfia) das orquidáceas (não ocorre noutras famílias de plantas); não tem, por isso, qualquer utilidade no estabelecimento de relações de parentesco entre as orquidáceas e outros grupos de angiospérmicas. |
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Clado (clade) |
Grupo monofilético de organismos: inclui o ancestral comum e todos (e apenas) os seus descendentes. |
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Cladograma (cladogram) |
Representação diagramática das relações evolutivas (= filogenéticas) de um dado conjunto de organismos ou de grupos de organismos, obtida com base na partilha de apomorfias. |
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Espécie ancestral (ancestral species) |
Espécie que deu origem a pelo menos uma espécie-filha (daughter species). |
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Filogenética (phylogenetics) |
Área da sistemática que explora as relações evolutivas entre os organismos vivos e extintos. |
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Grado (grade) |
Grupo parafilético. As ‘gimnospérmicas’ num sentido lato (incluindo grupos extintos como as Bennettitales) são parafiléticas – constituem um grado – porque não incluem as angiospérmicas. |
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Grupo basal (basal group) |
Linhagem que divergiu mais cedo da raiz de um determinado clado, constituindo o grupo-irmão de todos os restantes membros desse clado. O termo refere-se estritamente à posição de ramificação na árvore filogenética (divergência precoce) e não deve ser confundido com "primitivo" ou "menos evoluído". Os Amborellales são o grupo basal das angiospérmicas atuais (acroangiospérmicas). |
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Grupo-coroa (crown group) |
Engloba o conjunto das espécies atuais mais as suas ascendentes até ao ancestral comum mais recente (inclusive). O grupo-coroa é monofilético. |
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Grupo-irmão (sister group) |
O táxon ou clado evolutivamente mais próximo de outro num cladograma; partilham um ancestral comum exclusivo. As gimnospérmicas atuais (acrogimnospérmicas) são irmãs das angiospérmicas. |
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Grupo monofilético (monophyletic group) |
Grupo de organismos que reúne um ancestral comum e todos (e apenas) os seus descendentes. As angiospérmicas são monofiléticas. |
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Grupo parafilético (paraphyletic group) |
Grupo que inclui o ancestral comum mais recente, mas não todos os seus descendentes. É um grupo incompleto, onde pelo menos uma linhagem descendente foi removida. Geralmente são assinalados entre aspas simples (‘ ’). Os ‘pteridófitos’ são um grado, enquanto os fetos constituem um clado. |
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Grupo polifilético (polyphyletic group) |
Grupo artificial que reúne organismos derivados de duas ou mais linhagens distintas, excluindo o ancestral comum mais recente de todos os membros do grupo. Um agrupamento taxonómico, como em tempos se supôs, que reunisse sob a mesma designação as Gnetales (gimnospérmicas) e as angiospérmicas, com base na partilha de vasos lenhosos e de algumas etapas da dupla fecundação, seria polifilético, porque estas similaridades evoluíram de forma independente (convergência), em linhagens muito distintas. |
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Grupo-tronco (stem group) |
O grupo-tronco de um dado táxon inclui todas as espécies desde a emergência do grupo até ao ancestral comum das espécies atuais (exclusive). Representa a linha evolutiva desde a divergência com o grupo-irmão até ao ancestral do grupo-coroa. O grupo-tronco é parafilético. Os Caytoniales (como o género Caytonia) possuíam cúpulas carnudas a envolver os primórdios seminais – consoante os autores, são considerados um grupo-irmão (o clado evolutivamente mais próximo) ou parte do grupo-tronco das angiospérmicas (um grupo embebido no ramo evolutivo antecedente às angiospérmicas). |
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Homoplasia (homoplasy) |
Carácter ou estado de carácter partilhado por um ou mais taxa resultante de paralelismo ou convergência evolutiva, e não de ascendência comum (v. vol. II). Os espinhos foliares em Eryngium (Apiaceae) e Carlina (Asteraceae) são homoplásicos (resultam de convergência evolutiva). |
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Plesiomorfia (plesiomorphy) |
Carácter ou estado de carácter ancestral ("primitivo"). A semente é uma autapomorfia nos espermatófitos, porém uma plesiomorfia ao nível das angiospérmicas; a flor é uma autapomorfia das angiospérmicas e uma plesiomorfia nas asteráceas. |
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Polaridade (polarity) |
Refere-se ao sentido (direção) das mudanças evolutivas de uma estrutura ou de um carácter (do estado plesiomórfico para o apomórfico). |
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Simplesiomorfia (symplesiomorphy) |
Plesiomorfia partilhada por mais de um grupo de organismos. A autonomia do gametófito partilhada pelos briófitos e ‘pteridófitos’ é uma simplesiomorfia porque resulta da retenção de uma característica ancestral e não de uma inovação exclusiva destes grupos. |
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Sinapomorfia (synapomorphy) |
Apomorfia partilhada por dois ou mais grupos que indica uma ascendência comum, sendo, por isso, fundamental na identificação de relações de parentesco. A sinapomorfia é frequentemente considerada sinónimo de homologia. As primeiras angiospérmicas (incluindo as monocotiledóneas) possuíam pólen monossulcado (com uma abertura); o pólen tricolpado (com três aberturas) é posterior, constituindo uma sinapomorfia das eudicotiledóneas, unindo grupos tão diversos como as asteráceas e as leguminosas, distinguindo-os, porém, das monocotiledóneas e das magnoliídeas (como as magnólias). |