Natureza e funções da inflorescência
Definição e função da inflorescência
A inflorescência é um sistema de caules com uma ou mais flores (Classen-Bockhoff, 2001). Somente as angiospérmicas têm inflorescências. A sua diferenciação a nível meristemático foi abordada no ponto «Meristemas». A inflorescência é, historicamente, um dos tópicos mais difíceis e conflituosos da organografia vegetal (Classen-Bockhoff & Bull-Hereñu, 2013; Prenner et al., 2009). As dificuldades em torno da arquitetura das inflorescências vão muito para além da inconsistência terminológica: muitas inflorescências são, per se, difíceis de interpretar morfológica e evolutivamente, ou não estão ainda suficientemente compreendidas para serem enquadradas nos tipos estritos definidos na bibliografia clássica. Para escapar a estas armadilhas, as Floras e as monografias taxonómicas evitam, muitas vezes, qualificar rigorosamente as inflorescências, ficando-se por descrições vagas do tipo «inflorescência racemosa» (semelhante a um cacho) ou «inflorescência corimbiforme» (semelhante a um corimbo).
A aproximação à inflorescência adotada neste texto tem objetivos mais pedagógicos do que estritamente científicos. Tem como ponto de partida a leitura do livro clássico de Weberling (1992), o qual, por sua vez, se baseia na visão tipológica da inflorescência defendida pelo eminente morfologista alemão Wilhelm Troll (1897-1978). O estudo moderno da inflorescência valoriza mais a ontogenia das formas (e.g., tipos e posição dos meristemas reprodutivos) do que as abordagens tipológicas tradicionais (Classen-Bockhoff & Bull-Hereñu, 2013).
Em comparação com a estratégia de produzir flores isoladas e dispersas pela copa, o agrupamento das flores em inflorescências constitui uma forma muito mais eficiente de atrair e cativar os polinizadores (v. «Geitonogamia»), uma vez que o mesmo efeito de atração visual e olfativa (por flor ou por primórdio seminal) é obtido com um menor investimento em nutrientes e energia. Com as flores organizadas em inflorescências densas, as plantas podem desviar recursos metabólicos da construção de grandes corolas (e de outras estruturas dispendiosas na atração de polinizadores) e investir na produção de mais primórdios seminais, sem comprometer a taxa de visitação de polinizadores (pollinator visitation rate; número de polinizadores que visitam uma flor ou uma planta por unidade de tempo). Para aumentar a visibilidade, as inflorescências de algumas espécies encontram-se guarnecidas de brácteas vivamente coloridas e outros elementos de atração, chegando a simular, no seu conjunto, uma única grande flor (v. «Pseudantos, proliferação tardia e metamorfoses»). A concentração espacial das flores é uma estratégia particularmente vantajosa em territórios (ou nichos ecológicos) caracterizados por uma janela temporal muito curta de disponibilidade de polinizadores e de recursos essenciais à produção de frutos e sementes. No ponto «Arrastamento do pólen. Comportamento forrageador das abelhas e de outros himenópteros polinizadores», explica-se em detalhe como a própria arquitetura de certas inflorescências promove a polinização cruzada.
Para além da eficiênciaatractividade reprodutiva,para os polinizadores, as inflorescências densas de flores pequenas — como os capítulos das asteráceas ou as umbelas compostas das apiáceas — reduzem significativamente os riscos de consumo dos primórdios seminais. Ao criarem uma superfície compacta de corolas e estames, mantêm os primórdios seminais (frequentemente encerrados em ovários ínferos) fisicamente afastados de insetos fitófagos com armaduras bucais trituradoras (e.g., coleópteros) (Figuras 147-A, H, 152-A e 281-E, G) (V. Grant, 1950). Alguns visitantes florais especializados, como as abelhas solitárias dos géneros Halictus (Halictidae) ou Panurgus (Andrenidae), forrageiam e percorrem freneticamente a superfície destes capítulos à procura de pólen, um comportamento altamente proveitoso para o sucesso reprodutivo das plantas.
Constituição da inflorescência