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Morfologia do caule

Nos pontos que se seguem é feita uma descrição de alguns aspetos de morfologia externa indispensáveis para a compreensão da estrutura e função do caule. Outros temas igualmente relevantes de morfologia externa do caule são abordados na segunda parte deste volume (v. «Crescimento e Arquitetura da canópia»). A razão de ser da evolução dos caules lenhosos é discutida no volume II.

Situação e consistência do caule

Quanto à situação, os caules podem ser:

  • Aéreos – tipo dominante;
  • Aquáticose.g., caules dos ranúnculos-aquáticos (Ranunculus subgen. Batrachium, Ranunculaceae);
  • Subterrâneose.g., tubérculos de batateira.

O carácter «consistência do caule» tem três estados de carácter:

  • Herbáceo (herbaceous) – caule tenro normalmente verde, sem ou com crescimento secundário exteriormente não evidente;
  • Lenhoso (woody) – não verde (com ritidoma) e com a consistência da madeira, com abundante xilema secundário;
  • Carnudo (fleshy) ou suculento (succulent) – caules engrossados, ricos em água e substâncias de reserva armazenadas em tecidos parenquimatosos.

Os caules herbáceos normalmente são verdes, lisos, de secção mais ou menos circular, glabros (sem pelos) ou revestidos de indumento. Menos vezes apresentam-se estriados, sulcados ou angulosos. São angulosos, por exemplo, nas Lamiaceae e nas Melastomataceae. À semelhança do que acontece na folha, as células vivas dos caules herbáceos realizam as trocas gasosas necessárias à respiração celular através de estomas dispersos pela epiderme. Todos os caules lenhosos são inicialmente herbáceos; a consistência lenhosa é uma consequência do crescimento secundário com iniciação da felogene (v. «Estrutura secundária do caule»).

Num contexto de morfologia vegetal, carnudo refere-se à consistência da carne e a suculência à abundância de líquido aquoso (Font Quer, 1985). Na prática, a sua sinonimização não levanta grandes problemas porque os dois conceitos sobrepõem-se largamente. Uma planta carnuda ou suculenta tem folhas ou caules carnudos.

Superfície do caule lenhoso

A superfície dos caules lenhosos é variável (Figura 94). O ritidoma (ou a periderme) pode ser castanho, cinzento (e.g., lódão-bastardo [Celtis australis, Cannabaceae]), creme ou mesmo branco (e.g., bidoeiro [Betula, Betulaceae]). Pode ainda ser brilhante (e.g., pinheiro-negro [Pinus nigra, Pinaceae]) ou baço (carvalho-alvarinho [Quercus robur, Fagaceae]), espesso (e.g., sobreiro) ou delgado (e.g., roseiras [Rosa, Rosaceae]), mole (e.g., sequoia [Sequoia sempervirens, Cupressaceae]) ou duro (condição mais frequente), liso (e.g., Celtis australis), sulcado (e.g., Quercus) ou destacar-se em placas (e.g., inúmeras Commiphora africana [Burseraceae]), em fitas verticais (e.g., eucaliptos) ou em fitas horizontais (e.g., cerejeira). Depois de extraída a cortiça no sobreiro, a periderme é inicialmente rosa, tomando, pouco depois, uma cor vermelho-ocre e, mais tarde, castanha (no ponto «Periderme e ritidoma» explicou-se que a cortiça é uma periderme e não um ritidoma; Figura 88). No choupo-negro (Populus nigra, Salicaceae) e na aveleira, entre outras espécies, formam-se complexos de rebentos epicórmicos no tronco, algo que não acontece nos choupos-híbridos (e.g., P. x canadensis) (v. «Ramos epicórmicos»).

Vários padrões são recorrentes nas características da superfície dos caules lenhosos. Nos biomas sujeitos a fogos recorrentes (e.g., Cerrado brasileiro e floresta esclerofila mediterrânica) são frequentes espécies de ritidoma (ou de periderme) espesso, com a função de proteger do fogo a parte viva do tronco. A cortiça do sobreiro é um exemplo bem conhecido. Nas florestas tropicais, pelo contrário, a periderme/ritidoma é invulgarmente delgada. As plantas só investem na produção de um felema espesso, um tecido energeticamente caro, se houver ganhos de fitness.

Tipos de caule (metamorfoses)

O caule apresenta uma versatilidade evolutiva superior à da raiz, facto que resultou num vasto número de tipos caulinares descritos na bibliografia. Os tipos resumidos no Quadro 13 (Figuras 95, 96 e 97) evoluíram de forma recorrente em diferentes ecossistemas e linhagens de plantas; ou seja, são frequentemente estruturas análogas (não homólogas).

Embora ocorra frequentemente associado ao rizoma, o pseudocaule será abordado no capítulo dedicado à folha (v. «Situação e diferenciação»), dado que a sua estrutura é composta predominantemente por bainhas foliares. Aplicou-se o mesmo critério aos «Bolbos e bolbilhos».

QUADRO 13

Metamorfoses mais relevantes do caule (tipos de caule) (autores diversos)

Tipo

Descrição

Exemplos

Caule suculento

(succulent stem)

Caule volumoso, rico em água, de diâmetro variável consoante a disponibilidade de água no solo; folhas muitas vezes ausentes ou reduzidas a espinhos.

Catos (Cactaceae) e muitas euforbiáceas africanas e macaronésicas de climas semiáridos a semidesérticos.

Caule volúvel

(voluble stem)

Caule que se acomoda à superfície por onde progride ou que se enrola em torno de um tutor. Consoante as espécies, os caules volúveis enrolam-se para a direita – caules dextrorsos –, como para a esquerda – caules sinistrorsos (condição mais rara).

Aristolochia spp. (Aristolochiaceae), Ipomoea spp. (Convolvulaceae) e jasmineiros (Jasminum, Oleaceae). Os caules volúveis são dextrorsos nos feijoeiros e sinistrorsos no lúpulo, por exemplo.

Colmo
(culm)

Caule geralmente herbáceo e flexível, de nós bem marcados, frequentemente oco (fistuloso), revestido pelas bainhas das folhas.

Característico da família Poaceae.

Cormo *
(= bolbo sólido, tuberibolbo)
(corm)

Resulta do engrossamento, na vertical, de um segmento de caule com um ou mais entrenós, revestido por uma ou mais folhas de proteção (catafilos) e com raízes adventícias na base. Os cormos muito pequenos caem no conceito de bolbilho («Bolbos e bolbilhos»); os pseudobolbos de muitas orquídeas tropicais são cormos revestidos por bainhas de folhas prolongadas num limbo.

Poa bulbosa (Poaceae), açafrão (Crocus sativus, Iridaceae), gladíolos (Gladiolus spp., Iridaceae), frésias (Freesia x hybrida, Iridaceae), gloxínia (Sinningia speciosa, Gesneriaceae) e begónias-tuberosas (Begonia spp., Begoniaceae) e muitas orquídeas tropicais (Figura 95-C).

Escapo
(scape)

Caule mais ou menos longo, geralmente sem folhas (áfilo), por vezes, com bractéolas, que termina numa flor ou numa inflorescência, provido ou não de uma roseta de folhas na base, as quais, como ele, frequentemente originadas num bolbo, num rizoma ou em raízes tuberosas.

Margaridas (Bellis, Asteraceae) e jacintos (Hyacinthus orientalis, Hyacinthaceae) (Figura 95-A).

Espinho caulinar
(thorn)

Caule pontiagudo, rijo e difícil de destacar. Não confundir com acúleos e espinhos de origem foliar.

Comum nas Rosaceae (Figura 100). Não confundir com acúleo.

Espique
(stipe)

Caule não ramificado, revestido por restos do pecíolo das folhas, geralmente cilíndrico e esguio, culminado por uma roseta de grandes folhas, com feixes líbero-lenhosos fechados em grande número, dispostos irregularmente.

Característico das palmeiras (Arecaceae).

Estolho
(stolon)

Caule aéreo, prostrado e com raízes adventícias caulógenas emitidas nos nós.

Morangueiro (Fragaria x ananassa, Rosaceae) e grama (Cynodon dactylon, Poaceae) (Figura 97-B).

Filocládio
(= cladódio) (phylloclade)

Caule achatado, mais ou menos laminar, por vezes, suculento (e.g., Opuntia), que desempenha a função clorofilina, no qual, por vezes, se inserem ramos, folhas reduzidas ou flores.

Gilbardeira (Ruscus aculeatus, Asparagaceae, Nolinoideae) e de Opuntia spp. (Cactaceae) (Figura 95-I,J).

Gavinha caulinar (tendril)

Extremidade delgada de um caule flexível, ramificada ou não, desprovida de nomofilos, adaptada a envolver ramos ou outros tipos de suportes.

Videira-europeia (Vitis vinifera) e maracujazeiros (Passifloraspp., Passifloraceae).

Lenhotubérculo

(lignotuber)

Caule lenhoso espesso, geralmente tortuoso, diferenciado na região do colo (transição caule-raiz), com abundantes reservas amiláceas e gemas dormentes. Característico de certas espécies lenhosas sujeitas a fogos recorrentes.

Os lenhotubérculos das urzes (Erica, Ericaceae) são apreciados pelo seu elevado poder calorífico e pelo lenho tortuoso e duro (como matéria-prima para a fabricação de cachimbos) (Figura 95-F,G,H).

Prato ou disco dos bolbos
(basal plate)

Caule curto e de entrenós muito curtos, geralmente subterrâneo ou localizado à superfície do solo, de crescimento vertical e com um grande número de raízes adventícias na base, no qual se inserem uma ou mais folhas carnudas de reserva e, nos bolbos entunicados, revestido por uma túnica externa constituída por uma ou mais folhas membranosas de proteção (catafilos). O conjunto prato do bolbo + folhas recebe o nome de bolbo («Bolbos e bolbilhos»).

Todas as aliáceas mediterrânicas; e.g., cebola (Allium cepa) (Figuras 141 e 142).

Rizoma
(rhizome)

Caule subterrâneo, vertical, horizontal ou oblíquo, ramificado ou não, com abundantes raízes adventícias caulógenas, geralmente inseridas nos nós, revestido de folhas escamiformes (catafilos) que axilam gemas ou os caules aéreos gerados por essas gemas. Os rizomas podem ser herbáceos ou lenhosos (com crescimento secundário). Os rizomas tuberosos são engrossados e têm uma função de reserva (Figura 96-A).

Rizoma herbáceo vertical em Elytrigia juncea (Poaceae), horizontal no estorno (Ammophila arenaria, Poaceae) ou oblíquo nos crisântemos (Chrysanthemum, Asteraceae). Rizoma herbáceo tuberoso nos lírios (Iris, Iridaceae), no gengibre (Zingiber officinale, Zingiberaceae) e nas bananeiras (Musaspp., Musaceae). Produzem rizomas lenhosos o Quercus lusitanica e o Q. coccifera.

Sarmento
(sarmentum, cane)

Caule lenhoso, muito longo, delgado e flexível, que, apoiado em outras plantas, se pode elevar. Os sarmentos jovens, não atempados (i.e., de cor ainda verde), recebem o nome de pâmpanos.

Videira-europeia.

Tronco
(trunk)

Caule lenhoso desprovido de ramos na base, geralmente cónico e engrossando com a idade.

Maioria das gimnospérmicas e angiospérmicas de hábito arbóreo.

Tronco paquicaule (pachycaul trunk)

As plantas paquicaules exibem caules lenhosos, suculentos, pouco ramificados, desmesuradamente espessos para a sua altura. As árvores paquicaules são conhecidas por árvores-garrafa (bottle-trees).

Frequentes nos desertos arábicos, africanos e australianos; e.g.várias Cyphostemma (Vitaceae) e Pachypodium (Apocynaceae) do deserto do Namibe (Angola) (Figura 95-H).

Tubérculo (stem tuber)**

Caule engrossado, com abundantes reservas, folhas reduzidas a pequenas escamas com uma gema axilar e sem raízes adventícias. Geralmente formam-se na extremidade de caules aéreos ou de rizomas; em condições apropriadas, as gemas axilares dão origem a novos caules. Podem ser subterrâneos ou aéreos.

A batateira (Solanum tuberosum, Solanaceae) tem tubérculos subterrâneos e o inhame-de-são-tomé (Dioscorea alata, Dioscoreaceae) tubérculos aéreos (Figura 95-E). Muitas cultivares de nabo e de rábano produzem tubérculos aéreos; a tuberização da raiz nestas plantas é limitada (Figura 95-D).

Turião

(turion)

Rebentos, frequentemente vigorosos, de origem subterrânea ou aérea, com folhas (por vezes rudimentares) e sem flores, emitidos na estação de crescimento por plantas perenes. Em Rubus e Rosa, as flores formam-se nos ramos do ano laçados pelos turiões nascidos no ano anterior.

Os turiões dos espargos têm origem aérea ou subterrânea, e os turiões das roseiras (Rosa, Rosaceae) e das silvas (Rubus, Rosaceae) subterrânea.

Xilopódio

(xylopodium)

Estrutura lenhosa e subterrânea com origem hipocotilar, envolvendo, por vezes, tecidos da parte superior da raiz, com gemas de renovo concentradas na parte distal.

Numerosas plantas das savanas africanas, sul-americanas e australianas.

* O termo cormo tem dois significados; não confundir com cormo sensu corpo das plantas.

** Em inglês, tuber (traduzível por tubérculo) refere-se a qualquer estrutura engrossada de origem caulinar ou radicular; e.g., root tuber e stem tuber. Não é essa a tradição na botânica peninsular (Font Quer, 1985; Vasconcellos, 1969).

Clarificação de conceitos

A subordinação do cormo ao conceito de bolbo (v. «Bolbos e bolbilhos»), seguida por muito autores, é imprópria porque os cormos são morfologicamente mais próximos do rizoma herbáceo – os rizomas verticais apenas se distinguem dos cormos por não estarem revestidos de grandes catafilos.

O estolho e o rizoma herbáceo podem ser morfologicamente similares. Por exemplo, a grama (Cynodon dactylon) e o Stenotaphrum secundatum, e muitas outras Poaceae, produzem caules radicantes nos nós, classificados, consoante mergulham ou emergem do solo, como rizomas herbáceos ou estolhos, respetivamente (Figura 97-A).

Na identificação dos filocládios aplica-se, como nos espinhos, o princípio da homologia. Alguns autores restringem o termo «filocládio» aos braquiblastos análogos a folhas (e.g., Ruscus) e designam por platiclado os macroblastos laminares (e.g., Opuntia) (Figura 95-J,I).

Multiplicação de alguns tipos caulinares

Com a sucessão das estações, as partes velhas dos rizomas e dos estolhos perenes entram em senescência e morrem. A perenidade e renovação da planta faz-se pelo prolongamento das estruturas preexistentes, através da intervenção da gema apical (crescimento monopodial) ou de gemas laterais (crescimento simpodial) (Figura 96).

Os estolhos e os rizomas simpodiais são mais frequentes do que os seus análogos monopodiais, especialmente nas monocotiledóneas (Figura 96). Nas plantas obtidas por semente, os rizomas por regra diferenciam-se precocemente, na região do epicótilo (Pausas, 2017).

Enquanto unidades estruturais, os cormos, a maioria dos tubérculos e os bolbos são anuais, degenerando no final da estação (excetuando-se os estados de dormência). Alguns rizomas e estolhos exibem também este carácter anual; e.g., estolhos de morangos-selvagens (Fragaria vesca, Rosaceae) e rizomas de certas orquídeas.

A renovação dos cormos e de alguns bolbos ocorre pela produção de um ou mais cormos-filho ou bolbos-filho, seguindo um padrão monopodial ou, mais frequentemente, simpodial (Figura 98). A multiplicação dos bolbos é mais complexa nas espécies bienais (v. «Bolbos e bolbilhos»).

Por norma, os tubérculos são formados anualmente de novo a partir de sementes, rizomas ou caules aéreos, consoante a espécie. No caso da batateira, os tubérculos formam-se na extremidade de rizomas inseridos na parte subterrânea dos caules emitidos pela batata-semente (tubérculo usado na propagação da batateira) (Figura 99).

O xilopódio e o lenhotubérculo devem a sua persistência à acumulação de reservas energéticas e à formação de extensos complexos epicórmicos, dotados de uma profusão de gemas epicórmicas (v. «Ramos epicórmicos»). Adiante, ver-se-á que rizomas, estolhos, bolbos, cormos e tubérculos são instrumentais na biologia da reprodução de plantas cultivadas e não cultivadas (v. «Multiplicação vegetativa»). A diferenciação e alongamento dos troncos, turiões e outros tipos de caules lenhosos são extensamente discutidos no capítulo dedicado ao «Crescimento e Arquitetura da canópia».

Espinhos

 

Tronco e espique

 

Caules subterrâneos

 

Adaptações à perturbação pela herbivoria e pelo fogo a nível caulinar

 

Caules suculentos

 

Hábito lianoide