3. Classificação dos frutos
Critérios de classificação dos frutos s.l.
Os critérios mais importantes na sistemática dos frutos s.l. são a (i) origem, a (ii) consistência, a (iii) deiscência, o (iv) número de carpelos e o (v) número de sementes. Com base nestes critérios, definem-se os termos referidos no Quadro 34. Na classificação dos frutos s.l., ainda se considera a presença de asas, a aderência do pericarpo à semente, a consistência do endocarpo e a organização das brácteas que envolvem os frutos.
Os frutos que libertam naturalmente as sementes dizem-se deiscentes. São serotinos os frutos deiscentes que libertam as sementes em resposta a um estímulo ambiental (como o fogo ou a humidade). As floras sul-africana e australiana são particularmente ricas em espécies serotinas. Os frutos de uma das mais temíveis invasoras de Portugal continental, a Hakea sericea (uma proteácea de origem australiana), expelem as sementes após o fogo (dos Santos et al., 2015).
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QUADRO 34 Critérios de classificação dos frutos s.l. |
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Tipo |
Descrição e exemplos |
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QUANTO À ORIGEM |
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Frutos s. str. (= fruto autêntico) |
Procedentes de uma só flor de ovário súpero. Subdivididos em dois grandes subtipos em função da concrescência do ovário: (i) Frutos simples – gineceu unipistilado, com qualquer número de carpelos; e.g., cereja e pêssego. (ii) Frutos múltiplos (= frutos agregados) – gineceu multipistilado, i.e., apocárpico; cada pistilo dá origem a um frutículo; o fruto múltiplo é constituído pelo conjunto dos frutículos; e.g., drupéolas na amora (Rubus) e aquenioides no morango. |
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Pseudofrutos |
Provenientes de uma só flor de gineceu ínfero; incorporam tecidos do hipanto; e.g., maçã, pera e marmelo. |
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Infrutescências |
Incorporam tecidos carnudos ou secos com origem nos eixos da inflorescência, nos pedicelos das flores e, por vezes, das brácteas; e.g., ananás, figo e amoras de amoreira (Morus spp.). A maior parte das gramíneas dispersa-se na forma de infrutescência. |
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QUANTO À CONSISTÊNCIA |
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Frutos s.l. secos |
Pericarpo delgado e mesocarpo com um baixo teor em água; e.g., cápsula da papoila. |
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Frutos s.l. carnudos |
Pericarpo normalmente espesso, e mesocarpo rico em água e de consistência carnuda. Nos pseudofrutos carnudos, os tecidos carnudos geralmente têm origem no hipanto, e não nos tecidos carpelares. O endocarpo pode ser brando, coriáceo ou apresentar-se endurecido, i.e., lenhoso. Exemplos: endocarpo brando – bago de uva; endocarpo coriáceo – maçã; endocarpo lenhoso – cereja. |
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QUANTO À DEISCÊNCIA |
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Frutos s.l. deiscentes |
Abrem espontaneamente libertando as sementes; a unidade de dispersão (diásporo) é a semente; e.g., vagem de feijão. Os frutos carnudos muito raramente são deiscentes. |
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Frutos s.l. indeiscentes |
As sementes dispersam-se inclusas no fruto; unidade de dispersão (diásporo) é o fruto; e.g., fruto do girassol. O esquizocarpo é um tipo particular de fruto indeiscente que se fragmenta na maturação em mericarpos, i.e., o diásporo é constituído por um fragmento de fruto, correspondente ou não a um carpelo, com uma ou mais sementes inclusas; e.g., fruto da malva. |
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QUANTO AO NÚMERO DE CARPELOS |
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Unicarpelar |
Com origem num ovário com um carpelo; e.g., cereja. |
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Bicarpelar |
Com origem num ovário de 2 carpelos; e.g., fruto da couve. |
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Pluricarpelar |
Com origem num ovário com 3 ou mais carpelos; e.g., maçã. |
Nota: em alguma literatura botânica internacional e clássica, sinonimiza-se fruto múltiplo e infrutescência; neste texto usa-se a designação fruto múltiplo com o sentido de fruto agregado, como faz Font Quer (1985).
Tipos de frutos s.l.
A terminologia carpológica é muito variada e inconsistente. Antes de usar uma Flora ou monografias taxonómicas, é importante consultar, a este respeito, as introduções metodológicas ou os glossários anexos. O sistema de classificação de frutos seguido neste texto inspira-se em (Font Quer, 1985), com atualizações. Em função dos critérios expostos anteriormente, admitem-se seis grandes grupos de frutos s.l.: (i) frutos múltiplos, (ii) simples esquizocárpicos, (iii) simples secos, (iv) simples carnudos, (v) pseudofrutos e (vi) infrutescências. No Quadro 35, na Chave dicotómica 4 e na Figura 195 referem-se os subtipos mais relevantes em ecossistemas naturais ou comuns nas plantas de interesse económico.
Na documentação taxonómica, é corrente não se diferenciar aquénio de pseudoaquénio, cápsula de pseudocápsula, baga de pseudobaga e drupa de pseudodrupa, por exemplo. Para evitar inconsistências terminológicas na concretização da natureza do fruto, usam-se os adjetivos aqueniforme, capsular, baciforme e drupáceo.
O fruto das roseiras é frequentemente interpretado como um pseudofruto. No entanto, quer na flor, quer no fruto, os carpelos não estão adnados ao hipanto, e a úrnula que os contém tem uma pequena abertura para o exterior; por conseguinte, é mais correto considerar o cinorrodo um fruto múltiplo de aquénios.