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Estrutura e função da flor

O que é uma flor?

A flor é um ramo curto de crescimento determinado (braquiblasto) com entrenós extremamente reduzidos e folhas profundamente modificadas (metamorfoseadas), onde se consuma a reprodução sexuada nas angiospérmicas. Uma definição botânica similar, embora um pouco mais complexa, considera a flor como um eixo condensado de crescimento determinado, portador de órgãos produtores de esporos (micro e/ou megasporângios), que podem, ou não, estar rodeados por órgãos laminares estéreis (o perianto) (Rudall & Bateman, 2011). Para generalizar estas definições ao registo fóssil, é preciso adicionar um outro critério à definição de flor: a presença de carpelos, i.e., de megasporofilos fechados.

A hipótese de que a flor é um ramo modificado e que todos os seus órgãos (exceto os primórdios seminais e o recetáculo) são folhas modificadas foi postulada pelo polímata alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), em 1790; um momento-chave da história da botânica (Classen-Bockhoff, 2001).

Desde Darwin, a diversidade morfológica das flores tem sido atribuída à pressão de seleção imposta por vetores polínicos. Estudos experimentais e filogenéticos frequentemente mostram que os caracteres florais são adaptativos (fixados por seleção) e que mudanças no vetor de polinização arrastam consigo alterações na estrutura da flor que, ao longo do tempo evolutivo, se podem traduzir em novas espécies e linhagens de plantas (van der Niet & Johnson, 2012). Dado que a interação contínua com os vetores polínicos foi absolutamente determinante para a evolução e a arquitetura floral, a flor pode, por conseguinte, ser entendida primariamente como uma gigantesca adaptação à polinização.

Neste e no próximo capítulo, mostra-se que duas outras causas deixaram marcas profundas na estrutura das flores atuais: a (i) pressão de seleção exercida pelos fitófagos de flores (flower herbivores) e parasitas traduzida, por exemplo, em várias soluções estruturais de proteção dos primórdios seminais (e.g., hipanto, ovário ínfero e fruto); e a (ii) evolução de mecanismos especializados de dispersão das sementes, alguns dos quais já evidentes na ântese (e.g., ovário partido de labiadas e boragináceas).

Constituição da flor

Compõem a flor completa quatro componentes estruturais:

  • Recetáculo – eixo caulinar muito curto, frequentemente alargado, onde se inserem as peças florais;
  • Perianto duplo – com cálice (conjunto das sépalas) e corola (conjunto das pétalas);
  • Androceu – parte masculina () da flor, formada pelo conjunto dos estames;
  • Gineceu – parte feminina () da flor constituída pelos carpelos.

O cálice situa-se na parte proximal da flor (na base), e o gineceu, no extremo distal, sempre por cima da inserção dos estames (Figura 158). As flores completas que têm ambos os sexos funcionais são, portanto, hermafroditas (= bissexuais, cossexuais). É importante sublinhar que o conceito de «flor completa», à semelhança do conceito de «folha completa», não envolve inferências evolutivas — a descrição das flores incompletas, tendo como referência a flor completa, é meramente um útil artifício pedagógico.

A partir do modelo de flor completa definem-se vários tipos de flor incompleta:

  • Flor nua (flor aclamídea) – sem perianto;
  • Flor estéril – flor reprodutivamente não funcional, quer pela ausência total de esporofilos (estames e carpelos), quer pelo facto de estes se encontrarem atrofiados e não serem funcionais;
  • Flor apétala – flor desprovida de corola (sem pétalas), embora possa reter o cálice;
  • Flor unissexual – flor onde apenas um dos sexos é funcional, estando as peças do sexo oposto ausentes ou morfologicamente muito reduzidas/atrofiadas (em estaminódios ou pistilódios); as flores unissexuais podem ser pistiladas (flores estritamente femininas, ) ou estaminadas (flores estritamente masculinas, ) (Figura 157);
  •  Flor séssil – não possui pedúnculo (ou pedicelo), i.e., que se insere diretamente num nó.