Escolas públicas agrícolas. Há 4 mil alunos de galochas e enxada o ano inteiro

Nos últimos quatro anos, as matrículas nas escolas públicas agrícolas tiveram uma subida superior a 200%. Resta ver se este apelo do campo é mesmo para durar
Há escolas do ensino público onde os alunos têm de trocar ténis por galochas, lápis por enxadas, salas de aula por suiniculturas, pavilhões de desporto por prados verdes com cabras e vacas leiteiras. Se os miúdos das outras escolas desconfiassem que uns quantos colegas seus, em vez de aprenderem dentro das salas, ficam boa parte do tempo à solta nos campos, roíam–se de inveja. São quatro mil alunos a frequentar 14 escolas profissionais agrícolas da rede do Ministério da Educação. São poucos, mas eram muito menos há quatro anos, quando não ultrapassavam os 1700 estudantes a frequentar cursos que dão equivalência ao 9.º ou 12.º ano.

A Escola Profissional de Agricultura de Marco de Canaveses tinha 80 alunos em 2007 e hoje são 200. O número de estudantes cresceu em dois anos de 120 para 330 na Escola de Cister, em Alcobaça. A Escola de Carvalhais (Mirandela) tinha em 2009-2010 uma centena de estudantes e neste ano lectivo são 314. Poder-se–ia continuar a enumerar os casos, que em “quase todas as escolas a subida é expressiva”, garante Luís Barradas, dirigente da Associação Portuguesa de Escolas Profissionais Agrícolas e director da Escola Agrícola de Serpa.

O que se passa com estes miúdos que de súbito querem aprender como se cultiva tomate, como se conduz um tractor ou como se tira o leite a uma vaca? “O desinteresse era natural, tendo em conta que se vendeu a ideia de que podíamos viver sem o sector primário e continuaríamos a crescer sem produzir”, critica o director da Escola Profissional de Agricultura de Carvalhais, Manuel Pereira. Mais do que indiferença, foi um “complexo” que intimidou as gerações mais novas, conta Victor Manuel Vítor, da Escola de Marco de Canaveses. Uma mudança no discurso político e também uma maior visibilidade da agricultura na televisão terão contribuído para despertar esse “novo apelo do campo”. E agora as escolas agrícolas estão a renascer, ampliando espaços, requalificando salas e apostando em novos projectos. Em quase nada são parecidas com os outros estabelecimentos da rede pública. Produzem leite, vinho, azeite, queijos, cultivam frutas, hortícolas, cereais, criam porcos, cabras, vacas ou ovelhas.

Tudo o que produzem é vendido a empresas, habitantes ou cadeias de supermercados. As receitas servem para investir em obras, comprar e manter a maquinaria ou compensar as perdas com produções não rentáveis. “Se há coisa que estas escolas não podem ser é auto-sustentáveis, pois o ensino não é compatível com uma produção rentável”, avisa José Aires da Silva, director da Escola Agrícola D. Dinis, em Odivelas. As escolas agrícolas não dão lucro – esclarecem os directores –, mas o certo é que se transformaram num dos principais fornecedores das populações que habitam à sua volta. Todas as terças e quintas-feiras, logo pela manhã, a escola de Alcobaça deixa entrar os habitantes que vêm comprar alfaces, feijão, couves ou vinho.

Em Marco de Canaveses, os moradores da aldeia de Rosém não têm dia para aparecer, embora boa parte dos produtos da escola sejam comprados pelos próprios alunos, que aos fins-de-semana regressam a casa carregados de encomendas para a família. As pipas de vinho abastecem os restaurantes da cidade, o leite vai todo para uma união de cooperativas e boa parte da fruta é vendida a outras escolas.

Em Mirandela é mais fácil ir às compras, pois o minimercado e a queijaria da escola estão abertos todos os dias. A produção de queijos deu origem a uma microempresa gerida pelos alunos, que apostaram no público infantil ao inventarem queijos com sabor a gomas, chocolate ou nozes. Manuel Pereira conta que, no total, a Escola de Carvalhais angaria cerca de 150 mil euros de receitas anuais, investidos na requalificação dos edifícios, na maquinaria ou em adubos. “Parece pouco, mas faz diferença se tivermos em conta que o orçamento anual que o ministério atribui à escola é pouco mais de nove mil euros.”

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